A implosão de um deputado - Maria Lucia Victor Barbosa
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 06 de março de 1998
Maria Lucia Victor Barbosa 
Desta vez um membro do Congresso passou de todos os limites, e suas ações ilícitas culminaram com o escândalo que envolveu a morte de oito pessoas e a perda total dos bens materiais de muitas outras. Naturalmente estou me referindo ao deputado Sérgio Naya, dono da construtora Sersan e responsável pela queda do edifício Palace 2, no Rio de Janeiro, e pelo terror instalado entre os moradores do Palace 1 que está com as bases comprometidas.
Este deputado que pertencia ao PPB, partido que se apressou a expulsá-lo dos seus quadros diante da aproximação das eleições, não teve nenhum escrúpulo ao comentar numa reunião com vereadores de Três Pontas, MG, suas falcatruas tais como falsificação de assinaturas, uso de materiais usados como se fossem novos, etc. As conversas foram gravadas e levadas no ar no dia 3 deste no Programa Fantástico da Rede Globo, e é possível até que o deputado Naya tenha imaginado, a princípio, que sua aparição na TV haveria de conquistar não o repúdio mas o aplauso do povo do país do dá-se um jeito, da lei de Gerson, da impunidade, da moral frouxa, da mentalidade que aponta como burro aquele que não rouba, do uso corrente e normal da corrupção.
Além do mais, Sérgio Naya estava certo de que a imunidade parlamentar que desfruta o protegeria, como já aconteceu vezes sem conta com inúmeros colegas seus que não primaram pela ética. Imunidade, aliás, excessiva, que transforma pessoas que roubam e corrompem em cidadãos acima de qualquer suspeita.
Com isto não se quer dizer que o Congresso Nacional seja o abrigo inviolável de pessoas pouco dignas. A instituição possui em seu meio parlamentares sérios e dedicados, e tem que ser resguardada em nome da democracia. Entretanto, é imprescindível que o Congresso expurgue do seu ambiente malandros, espertos, e sobretudo oportunistas que procuram na carreira política não o exercício de uma vocação voltada para o bem comum, mas o acesso a privilégios de toda ordem e a meios espúrios e imorais de obter ou aumentar fortunas.
Mas ao que tudo indica, desta vez há uma certa urgência por parte do Congresso no sentido de implodir o deputado Sérgio Naya, cassando seu mandato. E isto deverá ser feito sob pena de se desmoralizar completamente o Poder Legislativo. Recorde-se, porém, que foi preciso o desmoronamento de um prédio e a perda de vidas humanas para que medidas fossem cogitadas. Antes disto, muitos dos pares do deputado Sergio Naya foram coniventes e complacentes com o mesmo em troca de agrados, como empréstimos generosos sem juros nem prazos para pagamento, imóveis de graça para morar, jatinhos para viagem ou passeio. Não fossem as vítimas do Palace 2, e tudo prosseguiria na doce impunidade do poder, e sob o manto do corporativismo gerador de cumplicidade.
Em se tratando de complacência e cumplicidade, recorde-se aqui a Prefeitura do Rio de Janeiro, também responsável pela tragédia na medida em que o prédio não possuia o habite-se, como aliás, não o possuem várias outras edificações daquela cidade. E o que significa isto? Irresponsabilidade, desorganização ou corrupção? Afinal, todos nós cidadãos brasileiros, temos o direito e o dever de questionar os poderes públicos, os quais sustentamos com taxas e impostos, e que foram criados para agir a nosso favor e não contra. Se não controlamos o poder que nos controla, como podemos exercer de fato a cidadania?
Contudo, é bom assinalar, para não incorrer em demagogia, que se nas gravações divulgadas pela Globo o deputado Naya parecia mais um menino travesso gabando-se de suas diabruras diante dos vereadores, isto sem dúvida se deve a confiança depositada pelo deputado nos seus eleitores, e em todos os demais, que por ingenuidade, ignorância ou identificação elevam ao poder gente como ele. Portanto, Sérgio Naya pode ter se inspirado, enquanto se pavoneava em Três Pontas, no pensamento de um outro colega que disse: O Congresso Nacional é a cara do povo brasileiro, o que significa que o povo escolhe para representá-lo aqueles que admira e com os quais se identifica por seus atos.
Se infelizmente há certa verdade no fato do Congresso ser a nossa cara, de outro é preciso frisar que não é difícil enganar e seduzir pela arte da política, principalmente as classes menos favorecidas. São estas que por suas agruras materiais se tornam mais propícias a acreditar num salvador que as livre das dificuldades advindas da sobrevivência precária. E são os pobres, os jovens e os infelizes que mais precisam acreditar que o futuro não será tão negro quanto o presente. É para essa massa considerável que se dirigem os demagogos, os ilusionistas da política, os peritos na arte de sedução. São eles que alimentam os necessários sonhos sem os quais ninguém vive, que dizem ao seu público o que este quer ouvir, que ostentam a mentira como se fosse verdade, brandindo promessas impossíveis. Entretanto, eleitores cada vez mais atentos observam os Naya da política. Lembrem-se disto o Congresso Nacional e, especialmente, os candidatos já em campanha.


