A imagem do Brasil - Cristovam Buarque
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 06 de janeiro de 1999
Cristovam Buarque 
No começo do século XX, o Brasil inspirava a imagem de natureza de índios, de sol. Cem anos de desenvolvimento econômico substituíram essa face dita selvagem por uma civilizada; mas não melhor, eticamente. No limiar do século XXI o País adquiriu uma imagem de horror social: meninos de rua, chacinas, incêndios florestais, epidemias, fome, violência. É como se o Brasil saísse do atraso puro da selva para a modernidade perversa da civilização doente, que caracteriza estes últimos anos do século.
Em 1998, o embaixador Celso Amorim foi obrigado a protestar, nas Nações Unidas, contra um embaixador estrangeiro que, em discurso, usou o Brasil como metáfora de depravação. Poucos meses depois, um parlamentar britânico fez o mesmo uso, ao falar de um possível roteiro sexual realizado por um ministro em uma importante capital brasileira, que ele disse ser a mais devassa das cidades do mundo.
O escritor francês Michel Houllebecq, em seu livro As Partículas Elementares, unifica a devassidão sexual com o horror social, ao descrever o sonho de um passeio do seu personagem pelas ruas do Rio de Janeiro. Passearia pelas favelas. O miniônibus seria blindado. Observaria os pequenos assassinos de 8 anos. As pequenas putas que morrem de Aids aos 13 anos.
É correto que os nossos embaixadores protestem, que nós todos fiquemos irritados; mais importante, porém, seria que descobríssemos nossa culpa na formação deste estereótipo do Brasil vergonha.
Entre a imagem do Brasil selva e a do Brasil vergonha, tivemos o grande salto dado pelo milagre econômico. E foi essa passagem que criou a vergonha. O País saiu da selva para o horror porque usou o milagre econômico para construir uma sociedade assustadoramente desajustada, imoralmente desigual e totalmente irresponsável no uso dos seus recursos. É no modelo econômico usado neste século que estão as raízes do terror social que nos envergonha no seu final.
Ao centrar seu conceito de civilização no PIB e aglutinar os produtos no consumo imitativo dos países ricos, o Brasil abandonou os investimentos sociais para aplicar suas cifras na infra-estrutura econômica, concentrou a renda para criar demanda para os produtos caros, endividou-se para investir e consumir, urbanizou-se em uma velocidade que destruiu as raízes sociais sem erguer outras em seu lugar, depredou seus recursos naturais na insana velocidade que o crescimento rápido exigia. Para que essa realidade continuasse, era preciso ser tolerante com todas as formas de devassidão, do mau uso dos recursos públicos aos costumes morais, passando pelo total desrespeito à natureza.
O resultado não poderia ser diferente: no final do século, o Brasil apresenta-se, na imaginação social do mundo globalizado, como um país devasso, corrupto, perverso. Ainda é tempo de recompor essa imagem. Não por meio de programas de relações públicas e marketing, tentando fabricar uma falsa realidade para encobrir nossa vergonha com o horror social, mas pela correção do rumo das últimas décadas.
Um investimento sistemático na educação, pelos próximos vinte anos, seria o mais decisivo passo para construirmos uma nova realidade, que levaria a uma nova imagem. Não mais a ingênua selva, tampouco o horror social. Mas investir em educação exige deixar de aplicar recursos em algum outro setor. É nessa revolução nas prioridades que está a nossa maior dificuldade. Porque, depois de certo tempo, a realidade não se deixa mudar facilmente, e a imagem fica-lhe agarrada.
- CRISTOVAM BUARQUE é professor da UnB e autor do livro A Revolução nas
Prioridades


