A imagem da vidraça
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 24 de julho de 2002
Walmor Macarini 
Ver um santo e comunicar-se com ele não é coisa do outro mundo. Mas quando uma manifestação ocorre, provoca um natural estado de comoção e de prostração, como o caso da imagem da suposta santa, na vidraça. Tal perplexidade acontece porque as pessoas foram ensinadas a crer que santos estão no céu e são inatingíveis, longe do alcance dos mortais. Pela intensidade dessa crença, a intercomunicação fica realmente difícil, porque aquilo que não é aceito não se manifesta. As divindades, que são onipresentes, não irão tornar-se visíveis e falar aos ouvidos das pessoas que não crêem que isso seja normalmente possível. Isto, ademais, amedrontaria as pessoas. Algumas poderiam, literalmente, morrer de susto. Então os santos aguardam, até que chegue o momento de serem chamados para o diálogo. Porque, por enquanto, as pessoas apenas os reverenciam e lhes fazem clamores.
Se as pessoas não são educadas espiritualmente para a prática dessas visões e comunicações, significa que não se elevaram, por isso não alcançam a frequência necessária para essa comunhão. Se elas não sobem, inútil esperar que os santos ''desçam'' e se materializem. Elas só crêem se vêem, porque a convicção é pequena. Imaginam que um forte estado emocional signifique a fé. Mas se começarem a crer mesmo sem ver, poderá ocorrer que realmente vejam. Não ouso opinar sobre o que ocorre com o caso da imagem da vidraça. Tal é irrelevante. As pessoas foram ensinadas pelas religiões a se imaginar pequenas, apenas uma estrutura física com uma alma presa dentro dela e que não pode ser usada para nada enquanto está ali, só se libertando quando o corpo perece. Não imaginam que tudo é regido por esse Eu interior, que pode atuar a todo o tempo, a não ser que dêem ouvidos apenas à voz do ego, que é a voz dos sentidos. E é isso que a maior parte da humanidade está fazendo.
Aparições são fatos comuns a muitas pessoas, que pelo seu grau de evolução não constróem santuários por conta disso e nem fazem tanto alarde. Limitam-se a passar adiante, com serenidade, aquilo que são incumbidas de dizer. A próxima evolução, no campo das comunicações, não será algo eletrônico que supere a internet, a televisão, a telefonia celular, mas a intercomunicação com os planos ora desconhecidos. Mensagens de ida e retorno serão comuns, da mesma forma que as infovias hoje não surpreendem ninguém. Mas esse intercâmbio com as esferas superiores não será coisa para as pessoas da presente geração adulta, afundadas no obscurantismo em que as religiões as mergulharam, mas para as que estão chegando, dotadas de outra linhagem genético-espiritual. Também já estão aqui, e muitos ainda virão, com o propósito de tumultuar, assim como os hackers colocam virus em nossos computadores.
De qualquer modo, com virus ou não, as infovias se impõem e prevalecem, e as revelações que virão, no campo do transcendente, irão igualmente triunfar, porque irreversíveis. Não será mais necessário, então, que os santos se materializem, porque será o homem que se espiritualizará. Não aparecerá nenhum sinal nos céus, como muitos crêem, porque as pessoas terão de conscientizar-se por si próprias e não por impactos. Ademais, os sinais externos sempre estiveram visíveis, bastando olhar ao redor e vê-los em toda a parte. A crença chegará pelo caminho natural. Nada de fora para dentro, mas a partir do homem.
As pessoas, escravizadas a dogmas, não vêem o milagre real que as cercam e que é a própria vida pulsando em tudo. E nessas condições querem ver santos... Não enxergam o fenômeno muito mais grandioso que se descortina ao simples abrir dos olhos e de sua percepção intuitiva, no mais das vezes desprezada. Se as pessoas não conseguem compreender a dimensão divina do desabrochar de uma flor, imaginando que isto é apenas um fenômeno da genética vegetal, não estão preparadas para ver santos e conversar com eles.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


