Os dados mais recentes do IBGE revelam um fato aparentemente impressionante: o crescimento expressivo da população evangélica no Brasil. Em números, parece um triunfo histórico, igrejas cheias, templos multiplicados, a presença evangélica consolidada na política e na cultura. Contudo, a frieza estatística não revela necessariamente vitalidade espiritual. Como tenho afirmado, os evangélicos não cresceram, inflaram.

A diferença entre crescimento e expansão inflada é fundamental. O primeiro implica maturidade, profundidade e consistência; o segundo, apenas volume e visibilidade. O fenômeno evangélico brasileiro parece enquadrar-se mais na segunda categoria: houve uma multiplicação de templos, mas não necessariamente de discípulos. A expansão foi horizontal, não vertical. E quando a fé cresce para os lados, mas não para as profundezas, corre o risco de tornar-se uma caricatura de si mesma.

Sob a ótica da teologia reformada, isso se torna ainda mais preocupante. Charles Spurgeon, o chamado “príncipe dos pregadores”, já alertava que “a Igreja que se adapta ao mundo não o converterá, mas será convertida por ele”. John Piper, em nosso tempo, ecoa o mesmo diagnóstico ao afirmar que “a glória de Deus não é exaltada quando o Evangelho é reduzido a um produto de consumo espiritual”. Ambos apontam para a mesma ferida: o declínio da centralidade de Cristo e o avanço de um cristianismo centrado no homem.

Infelizmente, muitos líderes evangélicos contemporâneos confundiram amor com permissividade e graça com licença. O resultado é uma geração que busca em Deus um alívio emocional, mas não uma transformação moral; que deseja o consolo do Evangelho, mas rejeita seu chamado à renúncia e à santidade. Como consequência, o movimento evangélico tornou-se mais emocionalmente apelativo e menos teologicamente sólido.


icon-aspas O verdadeiro crescimento da Igreja não se mede por estatísticas, mas pela profundidade de sua fidelidade

Nesse contexto, os pregadores das redes sociais e das TVs, tanto abertas quanto pagas, desempenham um papel central no processo de espetacularização da fé. Muitos deles tornaram-se verdadeiros “influenciadores do sagrado”, moldando a experiência religiosa a partir da lógica do entretenimento. O púlpito deu lugar ao palco; a exposição bíblica cedeu espaço à performance emocional; e a autoridade teológica foi substituída pelo carisma midiático. Em nome da relevância e da audiência, o Evangelho tem sido editado para caber nos moldes da cultura digital, tornando-se um produto de consumo instantâneo. É o que Spurgeon, se vivo hoje, talvez chamasse de “pão espiritual adulterado”: alimento que satisfaz momentaneamente, mas não nutre o coração regenerado.

A fé bíblica, no entanto, não se define por números ou por influência cultural. A fé verdadeira é fruto de regeneração, não de marketing religioso. É uma obra do Espírito Santo, não um projeto de expansão institucional. A Reforma Protestante, que completou 508 anos no último dia 31 de outubro, nos recorda que Sola Scriptura, Sola Fide, Sola Gratia, Solus Christus e Soli Deo Gloria não são slogans, mas fundamentos inegociáveis da fé cristã.

Quando esses pilares se enfraquecem, a Igreja pode até parecer viva, mas apenas parece. Suas estruturas florescem, suas agendas se multiplicam, seus discursos ecoam nas mídias, mas sua essência espiritual definha. O perigo está justamente aí: confundir movimento com vida, visibilidade com relevância, sucesso com santidade.

A chamada “explosão evangélica” no Brasil pode, portanto, ser menos um sinal de avivamento e mais um sintoma de superficialidade. Há igrejas que mais se assemelham a centros terapêuticos ou casas de entretenimento espiritual do que a comunidades de discipulado e arrependimento. O Evangelho da cruz foi, em muitos lugares, substituído pelo evangelho da conveniência.

Mas há esperança. A história mostra que Deus sempre levanta remanescentes fiéis quando a fé institucional se perde em meio à massa. Cabe a nós, líderes e comunidades, discernir os tempos e voltar ao essencial: Cristo e Sua Palavra. Porque, afinal, o verdadeiro crescimento da Igreja não se mede por estatísticas, mas pela profundidade de sua fidelidade. O resto é fé em movimento.

Emerson Mildenberg é PhD em Teologia, professor e pesquisador em religião e cultura contemporânea. É coordenador do Curso de Teologia da UniFil


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