A igualdade e seus males
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 06 de junho de 1997
Maria Lucia Victor Barbosa 
Num mundo onde a clonagem humana vai se tornando um ideal científico e um passo de ser concretizado, a tentativa de igualar parece ficar por conta de manipulações genéticas, que chegariam a fabricar criaturas idênticas pelo menos fisicamente. Como atenuante a tal monstruosidade, resta a certeza compartilhada por muitos, de que seria impossível igualar as personalidades dos clones, que tendo os mesmos corpos e rostos, reagiram como gêmeos idênticos, possuidores de preferências e estilos diferentes.
De fato é impossível igualar totalmente o ser humano, mas mesmo deixando de lado a clonagem ou fabricação de gente, parece que o homem tem buscado ao longo do tempo, às vezes de forma equivocada, a igualização de sua espécie. Todas as utopias sonhadas descreveram sociedades igualitárias, e a última delas, posta em prática no início desse século com o rótulo de comunismo, da autoria do profeta Karl Marx, exaltou a necessidade de uma sociedade sem classes, portanto, sem diferenças. Em interessante artigo na Revista Exame, em que pese algumas incorreções na interpretação do liberalismo, afirma Adriano Silva sobre a questão: O grande erro do marxismo foi ter ignorado as diferenças entre os seres humanos. Entre nós há os mais e os menos inteligentes, os mais rápidos e os mais lentos. O projeto comunista imaginava que oferecendo a todos as mesmas condições, a humanidade seria um conjunto de indivíduos fraternos, felizes e homogêneos. Montados nessa visão errônea da natureza humana, as sociedades comunistas foram niveladas por baixo. Para que não houvesse predadores, era proibido vencer. Os marxistas imaginavam que o deus-estado tudo proveria. Que a ditadura do proletariado seria a redenção de nossos pecados. Negligenciaram os indivíduos, a heterogeneidade de seus desejos, e se deram mal.
Justamente a tendência em nivelar por baixo é um dos males da igualdade, devidamente analisado por Alexis de Tocqueville em A democracia na América. Entendia ele que a paixão da igualdade tem dois gumes: ora leva os homens ao desejo de serem todos fortes e apreciados, ao desejo de subirem todos à classe dos grandes, sendo então varonil e legítima, ora, por uma perversão que infelizmente é demasiado comum, impede só os fracos ao desejo de atraírem os fortes a seu nível, tornando-os seus iguais no aviltamento e servidão.
Interessante é que Tocqueville chegou a essas conclusões ao observar um sistema democrático, que elevado a um nível otimizado conduziu à soberania da maioria. E assim, a maioria logrou traçar ao redor do pensamento, o poder invisível e quase incompreensível que de ordinário se desenvolve em todas as tiranias - um círculo formidável. Dentro desse círculo, era livre, por exemplo, o escritor, mas ai dele se ousasse atravessá-lo. Tanto que perdia até a tentação de o fazer e, desse modo, a própria raiz de sua liberdade de espírito, sem a qual não há gênio literário, estava apodrecida.
Prevalece, pois, nos homens, a inclinação para a igualdade, seja qual for o sistema econômico e político, e mais uma vez é preciso recorrer a Tocqueville para ir fundo em tema tão complexo: A liberdade política dá, de quando em quando, a certo número de cidadãos, sublimes prazeres. A igualdade oferece diariamente uma multidão de pequenos gozos a cada homem. Os encantos da igualdade sentem-se a todo instante, acham-se ao alcance de todos; os mais nobres corações não lhes são insensíveis e as mais vulgares almas nela encontram suas delícias.
Mas se há um ser humano, como numa espécie de conhecimento instintivo, a certeza de que todos resultamos de uma Unidade mais vasta da qual tudo procede, por outro lado é vital compreender que somos todos semelhantes mas não iguais. Tomando emprestada uma expressão de Ortega Y Gasset direi, então que somos um só enxame de muitas abelhas. Portanto, na sociedade de massas em que vivemos, e onde cada vez mais se padronizam comportamentos e valores, é preciso estar alerta para não se deixar envolver completamente pelos males da igualdade, onde os fracos atraem os fortes, trazendo isso como consequência o aviltamento e a servidão geral.
Esta situação na verdade já existe numa humanidade que cada vez mais se banaliza, que cada vez mais vive sobre a superfície dos fatos, e em entrevista à revista VEJA de 28/5, o médico e escritor, Dr. Moacyr Sciliar, alerta de certo modo para o círculo formidável em que vão se encerrando as sociedades. Afirma ele, que hoje em dia as diferenças são apenas um detalhe, funcionam como acessório de moda. O que se propõe é uma pitada de individualidade combinada com uma grande dose de homogeneidade. No fundo, o que está por trás das mensagens publicitárias, da ênfase na criatividade no trabalho, é uma espécie de slogan esquizofrênico: seja diferente: seja igual.
Para terminar, elejo uma frase do ex-primeiro ministro israelense, Shimon Perez, que encerra a lucidez necessária à nossa época: Democracia não é só direito de ser igual. É também o igual direito de ser diferente.


