A igreja, sem-terra e a PM - Padre Roberto de Paula
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 08 de setembro de 1998
Padre Roberto de Paula 
O Paraná, especialmente a região Norte, tem acompanhado com interesse a desocupação efetuada na Fazenda Cachoeira, município de Sapopema, pertencente à diocese de Cornélio Procópio. O modo de ação da Polícia Militar é merecedor de repúdio cristão, pois trataram trabalhadores (mulheres, velhos, crianças e jovens) como se fossem verdadeiros terroristas e ameaças à sociedade.
A área do município já está sob atendimento pastoral-religioso da Igreja Particular de Cornélio Procópio. E para lá foi designado o padre Clóvis Almeida para atender os excluídos da terra. São excluídos da terra pela ganância dos papa-terras e pela lógica desumana do capitalismo, mas são incluídos no Projeto de Jesus Cristo e na ação pastoral da Igreja.
Na manhã de sexta-feira, dia 4, o padre Clóvis se deslocou para o acampamento, com o objetivo de dar a Unção dos Enfermos a uma doente. Lá deparou com a desocupação. Na volta foi interceptado na entrada da cidade e conduzido à cadeia pública de Curiúva. Sua prisão foi testemunhada por moradores e pela reportagem da Folha. O padre estava cumprindo sua missão religiosa, pois isso faz parte de seu juramento sacerdotal e sacramental.
A PM também estava lá cumprindo o seu dever. Mas, que lei humana é essa que dá o direito de humilhar trabalhadores, de espalhar o medo e o terror? É inconcebível a forma que usaram para efetuar a desocupação: entrar às 4 horas da madrugada; exibir armamento sofisticado; submeter crianças, velhos e mulheres a uma pressão psicológica de medo; impedir que a imprensa realize sua missão prevista na Declaração Universal dos Direitos Humanos; e, prender arbitrariamente um padre da Igreja.
Não é esse tipo de ação que esperamos da PM. Poderiam ter usado de mais humanidade. Não era necessário tanta humilhação e nem a exibição gratuita de armamento pesado. Aliás, porque não usam dessa força contra aqueles que são ameaças à Nação? Isto é, contra os causadores do êxodo rural; os verdadeiros bandidos eleitos do País que contribuem em aumentar a pobreza, o latifúndio e os conflitos. Ademais nos perguntamos: o que faz parte do juramento e da missão de um policial? É proteger a pessoa humana?
A Igreja anseia pela providência divina e luta pela providência humana. É na humilhação a que seus filhos foram submetidos que proclama que Jesus Cristo está crucificado nos irmãos sem-terra. Mais, cobrará ações claras e dignas da Justiça e do governo. Ninguém deve ser submetido a constrangimento que atente à sua dignidade. Ainda fazem ecos em nossos ouvidos as últimas palavras do bispo Oscar Romero, assassinado pela ditadura militar: Ninguém é obrigado a cumprir uma ordem que humilhe a dignidade humana e nem uma lei que vai contra a de Deus.
PADRE ROBERTO DE PAULA é integrante da Comunicação Social da Diocese de Cornélio Procópio


