Causou-nos surpresa extremamente desagradável o artigo do padre Paulo Roberto de Paula, publicado na Folha, ‘‘Espaço Aberto’’, no dia 9. O padre critica veementemente a ação da Polícia Militar na desocupação da Fazenda Cachoeira, em Sapopema, e afirma que tal ação ‘‘é merecedora de repúdio cristão’’. No entender do sacerdote, ‘‘trataram trabalhadores (mulheres, velhos, crianças e jovens) como se fossem verdadeiros terroristas e ameaças à sociedade’’.
Através da diretoria da Sociedade Rural do Paraná, queremos, então fazer algumas considerações sobre as candentes palavras do padre Roberto de Paula sobre aquela desocupação legalmente cumprida.
Em primeiro lugar, somos também cristãos, e quando o padre pede o ‘‘repúdio cristão’’ contra a ação da polícia, que se limitou a cumprir a lei, protegendo uma propriedade legítima, obtida pelo trabalho e não ‘‘pela ganância dos papa-terra’’, conforme se refere o padre, nos sentimos discriminados. Neste sentido, queremos aqui lembrar as palavras do frei Boaventura Kloppenburg na sua ‘‘Eclesiologização para Oprimidos’’: os fiéis que não são pobres já se sentem constantemente insultados e como que perdidos numa Igreja que lhes dá a impressão de ter feito uma opção exclusiva e excludente pelos pobres, sem interesse pastoral por eles e sua vida crist㒒.
Em segundo lugar, reafirmamos que não somos a favor da violência, nem contra a reforma agrária. Inclusive, no ‘‘Manifesto à Sociedade’’, publicado neste jornal, no último dia 6, lamentamos o episódio envolvendo jornalistas na referida desocupação, como lamentamos agora o ocorrido com o padre Clóvis, que teve de se explicar na Delegacia de Curiúva.
Tornamos ao Manifesto para dizer que: ‘‘Certamente eles (os jornalistas, e agora o padre Clóvis) ‘‘sentiram a mesma indignação dos produtores e dos funcionários rurais, quando de uma hora para outra, se vêem impedidos de ir e vir em suas propriedades’’. Além disso, queremos acrescentar que nós, produtores rurais, temos sido vítimas de uma inusitada e sistemática violência que se abate sobre nossas pessoas, nossas famílias e nossos funcionários, quando propriedades são invadidas, pastagens queimadas, bois mortos, sendo que alguns de nós já passaram por situações de horror ao sermos colocados sob a mira de revólveres, espancados e ameaçados pelos invasores do MST.
E quantos de nós já não perderam tudo que tinha sido construído por nossos pais e avós, em nome de uma falsa reforma agrária que vai tomando nítidos contornos políticos, evidenciados na participação constante dos chamados sem-terra em invasões de prédios públicos, em passeatas etc.? E será que a violência do MST não merece também o repúdio cristão? Também é lícito perguntar quantos dos chamados sem-terra são vocacionados na terra como nós. Não estariam eles se transformando em massa de manobra que apenas serve a outros objetivos de poder, que não os seus?
Em terceiro lugar, o padre Roberto de Paula se refere a ‘‘trabalhadores, mulheres, velhos, crianças e jovens’’, que teriam sido humilhados por conta do armamento pesado e sofisticado exibido pela polícia. De fato, nas invasões aparece um contingente de mulheres, velhos, jovens e crianças. Mas o padre Roberto não incluiu os homens adultos, capazes também de espalhar ‘‘medo e terror’’.
Ainda no dia 8 passado, o jornal ‘‘O Estado de S. Paulo’’ noticiou a morte do segurança Eliezes Vida de Negreiros, de 57 anos, ocorrida em Moitas, distrito de Amontoada, a 159 quilômetros de Fortaleza (CE). Segundo o jornal, tudo aconteceu depois que um grupo de sem-terra acampou na propriedade dos paranaenses Mário e Michel Toniatti. Eliezes discutiu com os invasores, e teria atirado para o alto para assustá-los. Os sem-terra recuaram num primeiro momento, e em seguida, segundo testemunhas, mataram o funcionário com vários golpes de foice, facadas e pauladas. Depois o despiram e jogaram seu corpo no mar.
Como se nota, esses sem-terra não tinham armamento pesado ou sofisticado, mas suas armas foram suficientes para cometer um assassinato brutal. Será que se pode dizer que esse ato é necessário para chamar a atenção do governo para a reforma agrária? Agora, imagine-se se um sem-terra fosse assassinado dessa forma pela polícia.
O padre Roberto também enveredou no seu artigo para um assunto melindroso e perigoso ao recordar as palavras do bispo Osmar Romero, ditas num outro contexto político: ‘‘Ninguém é obrigado a cumprir uma ordem que humilhe a dignidade humana e nem um lei que vai contra a de Deus’’. Concordamos. Mas sabemos que não é possível a uma sociedade viver sem leis. E temos apenas pedido ao governo que cumpra o que está na nossa Constituição com relação ao direito de propriedade.
Afinal, sem leis voltaríamos ao estado primitivo onde prevalece a ‘‘lei do mais forte’’. Sem leis, sequer pode haver justiça. E nós, caro padre Roberto, que também somos filhos da Igreja, apenas queremos leis que nos protejam da violência e do esbulho. E que Deus nos ajude, porque as leis humanas têm nos faltado.

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