O Documento de Aparecida, ora aprovado pela 5 Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, mantém a ênfase da Igreja Católica para a sua doutrina social. Sem desprezo das questões dogmáticas tradicionais que tratam da fé, houve quase unanimidade dos 130 prelados pela atenção aos problemas temporais da região centro e sul do Continente, que é a área de sua jurisdição eclesiástica. Com apenas dois votos contra e um em branco, o documento de 118 páginas foi do agrado de todos.
A posição da Igreja revelada nesta conferência - que teve início logo à chegada do Papa Bento XVI ao Brasil e foi até o último dia 31 - incursiona também pela política e promete ''estimular a formação de políticos e legisladores cristãos, para que contribuam na construção de uma sociedade justa e fraterna, segundo os princípios da Doutrina Social de Igreja''. Os bispos declaram que ''com firmeza e decisão'' continuarão a exercer sua ''tarefa profética, discernindo onde está o caminho da verdade e da vida'' e levantando a voz nos espaços sociais dos vilarejos e cidades, especialmente a favor dos excluídos da sociedade.
Essa reafirmação da política da Igreja é uma proposta ''para os próximos anos'', portanto de longa duração, não se acreditando que essa instituição religiosa de 160 milhões de fiéis brasileiros mude tal enfoque ou eventualmente o abandone para dedicar-se exclusivamente à doutrinação espiritual. Os dois caminhos serão trilhados, mas as misérias sociais que assolam esta parte do mundo - Brasil incluído - não passam ao largo no olhar dos bispados, e, ao que o Documento indica, terão prioridade de atendimento. Porque é também dessa forma que a Igreja busca frear o êxodo de fiéis católicos que migram para outras religiões.
A Igreja Católica, no Brasil, tem grande poder e é um dos sustentáculos da política em defesa dos mais fracos - que mais desassistidos seriam, com toda a certeza, sem a presença vigilante e atuante do clero católico. Sem desprezo pela obra das demais doutrinas nesse sentido. Maior ainda seria o domínio da Igreja Católica se ela se avançasse um pouco mais, marcadamente diante dos tantos escândalos de corrupção na administração pública brasileira e da baixa operância parlamentar, porque o tempo vai se escoando e a discussão de grandes reformas não é colocada em pauta.
''Com firmeza e decisão'', enfatiza o Documento de Aparecida ao anunciar sua cruzada. Que a recente visita do Papa e a unanimidade na manutenção desta política social resultem num vigor intensificado de ação, sem nenhum temor da Igreja de intervir, qual terceiro Parlamento, porque tem por trás de si uma legião enorme de brasileiros, quase a nação inteira de cristãos-católicos, que, sem titubeio, têm os mesmos ideais e um pensamento comum pela causa de uma sociedade mais justa, com mais paz social e menos violência.

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