A Igreja e a seca no Nordeste
A Igreja e a seca no Nordeste
Newton de Góes Orsini de Castro
Em seus pronunciamentos à Nação, Fernando Henrique Cardoso argumenta eristicamente com um dogmatismo por demais vulgar. Muitos confundem com cultura o que poderia, no máximo, ser chamado de eruditismo não conformado com as regras lógicas da verdade. Parece até que, honestamente, considera verdadeiro o que é falso: Hípias de Élida, se vivo, sentiria vergonha de ver tantas falácias reveladas em sofismas. Quando refere-se à seca no Nordeste leva-nos a concluir que no seu planejamento para proteção das elites privilegiadas não considera o Movimento dos Sem-Terra, hoje bem organizado. Mas sabemos que brevemente ele estará instalado, sistemicamente, na região.
FHC espelha-se numa análise sociológica que caracteriza o povo brasileiro como uma coletividade alienada. Lideranças estão surgindo com capacidade de identificar a realidade. Fernando Henrique Cardoso afirma que alguns clérigos insuflam o povo contra a ordem instituída. Seria mais correto referir-se à Igreja, que é quem critica, atualmente, a política neoliberal desumana aqui implantada: deveria saber que a disciplina e a hierarquia estabelecidas pelo Vaticano não permitem ações isoladas impunemente.
Os pontificados dos papas João XXIII e Paulo VI provocaram, indiscutivelmente, através do Concílio Vaticano II e de suas Encíclicas, profundas mudanças na Igreja, objetivando sua atualização em face da realidade crítica contemporânea. Por outro lado, a política hoje desenvolvida por João Paulo II também apóia, no Brasil, os pronunciamentos corretos e contundentes dos bispos em favor dos abandonados à própria sorte, dos manipulados eleitoralmente e dos que são fontes de enriquecimento ilícito. A Igreja pós-conciliar é certamente sensível às particularidades das paróquias e dioceses que o mundo contém: a descentralização é uma das suas características. Todavia, é uma só Igreja.
O acatamento subserviente das exigências dos que externamente controlam a globalização está aumentando as desigualdades sociais e econômicas no Brasil: estagnação, queda real dos salários, aumento da diferença entre pobres e ricos, e desemprego. Institucionalizaram a desordem. Sérias crises viveremos. A Igreja Católica Apostólica Romana está tentando levar Deus à consciência de Fernando Henrique Cardoso.
Constitucionalmente, estão caracterizados como objetivos fundamentais do País a erradicação da pobreza, da marginalização, e a redução das desigualdades sociais e regionais. A Magna Carta estabelece ser também dever do Estado assegurar à criança e ao adolescente com absoluta prioridade o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e a convivência familiar comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. Assim expressa-se a Constituição da República Federativa do Brasil.
O não-cumprimento dessas normas caracteriza crime, principalmente quando perpetrado por autoridades: não são os religiosos que incitam ao não-cumprimento da lei. Pelo contrário, nossos direitos civil e penal institucionalizaram a licitude da busca pela sobrevivência: O indivíduo que, sentindo o tormento da fome, sem dispor de meios para adquirir algo com que eliminá-la, pode furtar. É também eximido de culpa quando mata companheiro que consigo esteja disputando. Entretanto, no nosso ordenamento jurídico nada há que isente de responsabilidade aqueles que têm a obrigação de evitar que o cidadão chegue ao estado famélico. No Nordeste brasileiro não são os religiosos que induzem os miseráveis aos saques e sim o trato dispensado ao povo pelo governo brasileiro. Infelizmente, a nossa Constituição não dá meios para os cidadãos processarem os verdadeiros responsáveis.
NEWTON DE GÓES ORSINI DE CASTRO, Rio de Janeiro, RJ





