Há 1.700 anos, também em um 5 de abril, comemorávamos a primeira Páscoa, de forma unificada pela incipiente Igreja Católica. O Concilio de Nicéia, em 325, convocado pelo imperador romano Constantino, estabeleceu a Páscoa Cristã e outras pendências doutrinais.

Nos primeiros séculos os cristãos, perseguidos e isolados em suas comunidades, mantiveram tradições judaicas como a Páscoa, lembravam o Êxodo do Egito com jejuns e com o sacrifício de cordeiros. Jesus Cristo sofreu sua Paixão e morte na semana da Páscoa Judaica, desta forma, outros cristãos celebravam a Páscoa no domingo, lembrando o dia de sua ressurreição e dando-lhe um novo significado. Esse choque perdurou até Nicéia quando foi decidido pelos bispos presentes que dali em diante haveria um significado apenas, o de Cristo. Foi um rompimento doutrinal que deu legitimidade a Igreja como entidade diversa do judaísmo.

Os judeus comemoravam a sua Páscoa no 14º dia do seu primeiro mês na Primavera, Nissan, iniciado na Lua Nova. Assim sua festa se dava em uma Lua Cheia. Os cristãos não relevaram isso ao estabelecer o seu computus ou cálculo da data da Páscoa de Cristo, procedimento aparentemente simples, mas que reservava um certo grau de autoridade a quem determinava seu resultado. A Páscoa dos cristãos ocorreria após o Equinócio Vernal, fixado para fins eclesiásticos em 21 de março permanentemente, depois a primeira Lua Cheia após essa data, conforme tabelas do Ciclo Metônico.

No primeiro domingo após isso seria a Páscoa, uma data em que o calendário religioso se basearia doravante. O cálculo incluía observação astronômica, a contagem concomitante do tempo solar e lunar, em uma semana de sete dias, aplicados ao Calendário Juliano que já era falho, tendo um atraso de 11 minutos anuais em relação ao calendário astronômico. Coube ao bispo de Roma a cada ano, de forma epistolar, asseverando sua primazia e autoridade dentro da Igreja, comunicar as demais dioceses sobre a determinação da data da Páscoa e, em decorrência as demais celebrações ou períodos da Igreja: Quarta-Feira de Cinzas, Quaresma, Domingo de Ramos, Sexta-Feira Santa, Pentecostes etc.

O objetivo de um calendário é antecipar a data de eventos futuros de forma recorrente, e aquele idealizado por Júlio César em seu tempo de cônsul ou ditador em Roma tinha seus problemas. Ao longo do tempo os desvios do calendário juliano fizeram com que houvesse discrepâncias graves entre o equinócio astronômico e o eclesiástico prejudicando o estabelecimento da data da Páscoa e outros eventos religiosos e mesmo profanos.

A necessidade do estabelecimento de ajustes e a compreensão do que provocava as disrupturas, com base na observação dos movimentos celestes fez, nos séculos XVI e XVII, crescer o interesse pela astronomia. O estudo com rigor dos movimentos do Sol, estrelas, planetas, da Lua e dos seus ciclos incentivou o desenvolvimento de metodologias, o desenvolvimento e o aperfeiçoamento de instrumentos de observação e aferição. Esse contexto contribuiu para as bases da revolução científica e seus expoentes que usufruíram de um ambiente intelectual onde a precisão dos cálculos astronômicos era cada vez mais valorizada: Nicolau Copérnico; Tycho Brahe; Joannes Kepler, Galileu Galilei, e; Isaac Newton. O problema das datas, seu atraso ou falhas, foi solucionado em 1582 com o Calendário Gregoriano que ainda utilizamos.

A definição da data da Páscoa não era apenas uma questão religiosa e litúrgica. Ela marcou o estabelecimento da Igreja Católica e está na origem de avanços importantes na predição do tempo, dos calendários, aperfeiçoamento da astronomia e, de forma obliqua ao surgimento da ciência moderna. Cristo e os cristãos fizeram uma revolução no mundo.

Roberto Bondarik, professor da Universidade Tecnológica Federal do Paraná - Cornélio Procópio

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