O primeiro rascunho político do que será o Paraná vem da conjuntura etno-histórico-política dos índios no início do século XVI. Havia uma diferença entre os grupos guarani e os tupi aproximadamente na região de Cananéia. O Rio Paranapanema também pode ser considerado um marco divisor e cultural em termos de vários fenômenos arqueológicos. Esses limites entre grupos da mesma língua geral ou tupi-guarani não passaram despercebidos dos conquistadores e colonizadores portugueses.
A divisão do território denominado de brasileiro de 1535 em diante sinalizou uma fronteira em Cananéia. As grandes bandeiras paulistas do século XVII reformularam as fronteiras de Tordesilhas no Oeste e os descendentes dos mesmos bandeirantes lançaram as vilas do Brasil Meridional. Assim, foram oficializadas as vilas de Paranaguá em 1648, São Francisco do Sul em 1660 e Curitiba em 1693, bem como as origens da atual Florianópolis e Laguna.
Paranaguá formou-se como capitania secundária, sendo reunida na grande Capitania Real de São Paulo e das Minas de Ouro em 1709, quando esse imenso território foi comprado pela Coroa aos herdeiros dos antigos donatários. As vilas irmãs de São Francisco do Sul, da Ilha de Santa Catarina e da Laguna, foram separadas em 1738 com a estruturação da Capitania de Santa Catarina e do Rio Grande pelo brigadeiro Silva Paes. Paranaguá só teve a compensação de ser a sede da ouvidoria, uma espécie de segunda instância do Judiciário e sede de comarca.
O primeiro traço político do Paraná foi configurado no período pombalino (1750-1777). Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, foi um grande geopolítico e estrategista do Império português nas vastas possessões da América do Sul. Esse foi um período intenso na política de manutenção da Amazônia e das fronteiras no Sul. O período pombalino foi o primeiro a perceber e ter operacionalizado a idéia de um ‘‘poder executivo’’ no que será o Paraná. O governador da Capitania de São Paulo, o Morgado de Matheus (D. Luís Antonio Botelho Mourão) destacou para esse fim o tenente-coronel Afonso Botelho de Sampaio e Souza como uma espécie de ‘‘quase-governador’’ do território que será paranaense. Criaram-se as bases para expedições ao Oeste e a fundação da terceira vila paranaense, Guaratuba, em 1771. A fortaleza na Ilha do Mel ficou como prova de pedra da determinação daquele período já interpretado como um dos nossos despotismos esclarecidos. Pela primeira vez articulou-se um poder executivo na região.
A criação política de fato do Paraná ocorreu no período de construção e afirmação do Estado Nacional, no duro teste da unidade nacional durante o período regencial e nos anos iniciais do Segundo Reinado. A então comarca de Curitiba e de Paranaguá que cobria Paranaguá, Guaratuba, Antonina e Morretes no Litoral, e Curitiba, São José dos Pinhais, Castro, Lapa, Guarapuava e Palmas nos campos e florestas dos planaltos, teria a sua importância reconhecida.
Novamente outra grande escola de geopolítica e de estratégia percebeu, avaliou e reconheceu o papel político dessa região. Depois dos pombalinos, os chefes do Partido Conservador, a principal força política da construção da ordem imperial, pensaram na necessidade de um poder regional executivo ‘‘paranaense’’ no balanço de poder do Brasil Meridional.
A comarca de Curitiba chegou a separar os revoltosos farroupilhas do Rio Grande do Sul dos revoltosos liberais de Sorocaba em 1842. Homens como o baiano Zacarias de Góes e Vasconcellos, o primeiro presidente do Paraná, os grandes titulares conservadores como o Marquês do Paraná, o Visconde de Uruguai, o Marquês de Itaboraí, o Duque de Caxias e o próprio jovem imperador foram favoráveis às pretensões emancipacionistas das frações da classe dominante regional composta pelos ervateiros, grandes proprietários, tropeiros, pecuaristas e os seus filhos e genros bacharéis interessados na criação e participação de um novo aparelho regional de Estado.
O Paraná nasceu politicamente em sintonia com a ordem dominante central. A mais nova província do Império teria um papel de modernizar, ocidentalizar e dinamizar um Brasil diferente. A região cumpriu o seu desígnio de guardião geopolítico durante os embates de 1894 entre os federalistas e os florianistas, quando os primeiros não passariam do Itararé.
Em 1930 aconteceu o inverso. As forças paranaenses e os quadros provenientes do Sul atravessaram o Itararé porque assim demandavam substantivas forças políticas nacionais no triunfo do movimento de outubro de 1930. Em 1932, a política paranaense novamente sintonizada com o centro de poder nacional, agora sob a direção de Getúlio Vargas, auxilia na derrota do movimento constitucionalista de São Paulo. O PSD paranaense continuará, com Moysés Lupion no poder, a manter a hegemonia desses interesses nas décadas de 40 e 50.
De 1930 em diante, o Paraná se desdobra em muitos. Consolida-se o Norte com as correntes de migração vindas de São Paulo, de Minas Gerais e de várias regiões, contando até mesmo com velhos paranaenses. O café traz riquezas e população nas frentes pioneiras. O Sudoeste forma-se com imigrantes vindos de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, principalmente descendentes de alemães e de italianos.
O Paraná comemora o seu centenário em 1953 no governo de Bento Munhoz da Rocha Neto, do tradicional quadro das velhas famílias da classe dominante paranaense. Outro quadro marcante foi registrado por seu cunhado (da primeira esposa) Ney Braga, que foi governador do Paraná duas vezes (1961-1965 e 1979-1982). Ambos incorporaram o espírito da tradição e da mudança na modernização e construção institucional paranaense. Ambos tiveram um conceito de Paraná ligado ao desenvolvimentismo que se abria e se transformava em incrível velocidade naqueles anos. As ambivalências e contradições dos anos 50 chegaram ao desfecho nas crises políticas dos anos 60. A crise da renúncia do presidente Jânio Quadros, em 1961, encontrou uma política no Paraná indefinida. Porém, a política dominante paranaense novamente encontrou o seu lugar na ordem nacional vitoriosa e dominante com o movimento de 1964.
A inflexão seguinte (ou continuação) se deu em 1982. O partido do regime militar perdeu a eleição para a oposição do PMDB. Também o Norte ganhava a sua ampla maturidade política ao eleger como governador José Richa, político originário de Londrina, ainda que fosse mais um dos que passaram pelo formidável grupo político de Ney Braga. A novidade que começou com Paulo Pimentel, em 1966, tornava-se rotina e mostrava que o Paraná era um Estado e não apenas uma justaposição de norte e sul, ainda que o Sudoeste precise ser melhor cimentado.
Apesar das várias realizações, o ciclo do PMDB parece que deixou como arquétipo em muitos apenas as lembranças das cenas das borrachadas nos professores no Centro Cívico durante a gestão de Alvaro Dias. Mesmo a orientação mais social de Roberto Requião não conseguiu disfarçar esses componentes na sua promessa de mudanças.
A era de FHC, de 1994 em diante, irá recompor as forças políticas paranaenses. A nova situação nacional reconduziu o experiente grupo de Jaime Lerner ao poder e o converteu no novo PFL paranaense, o partido regional de apoio a este novo centro de poder dos anos 90. A lógica tradicional do poder político paranaense de estruturar o seu poder em relação à situação nacional mais uma vez confirma essa característica que tem sido um dos principais elementos da identidade política paranaense, a sintonia com a ordem nacional dominante e com a situação vitoriosa.
A eleição de 2000 continua a atualizar essa identidade. A política paranaense sempre se pautou e se organizou pelas forças nacionais em ascensão. O crescimento do Partido dos Trabalhadores (PT) no Paraná poderia ser a sinalização de que caso este partido vá ser governo no plano federal, caso ganhe a confiança e o apoio da população, o Paraná continuará a se sintonizar com mais um hipotético e futuro centro de gravidade da política que pode estar se construindo no Brasil.
A política paranaense apresenta historicamente a tendência de sempre manter uma relação positiva com a direção nacional. A expressão do crescimento do PT indicou que no Paraná ele também começou a existir seriamente, assim como também existe uma possibilidade séria e efetiva de uma eventual governabilidade petista do Brasil em 2002.
O Paraná tem uma identidade política tão clara quanto vários outros Estados. Se no Rio Grande do Sul a questão sempre passa pela maneira de como este Estado se relaciona com o poder central apesar de sua peculiaridade e de seus sentimentos oposicionistas crônicos, no Paraná a questão se apresenta a partir de como e de que maneira o Estado conduz o seu situacionismo em relação ao centro de poder real ou virtual, ao centro de poder efetivo e ao que se construirá.
A política paranaense sempre esteve com a tendência nacional vitoriosa, seja em 1842, 1853, 1894, 1930, 1932, 1945, 1961, 1964, 1982, 1994, e em 2002? A história dirá e a vida ensinará. Este tem sido o destino da formação geopolítica paranaense, de ser uma ponte de união, de consolidação e de situação na política brasileira em suas inflexões.
- RICARDO COSTA DE OLIVEIRA é doutor em Ciências Sociais, sociólogo e professor universitário em Curitiba

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