A hora e a vez da agroindústria - J. Natale Netto
J. Natale Netto
O agronegócio representa hoje mais de 40% do PIB brasileiro e congrega cerca de 52% de toda a nossa População Economicamente Ativa (PEA), movimentando aproximadamente US$ 240 bilhões por ano. É um conjunto macroeconômico ao qual estão integrados mais de 36 milhões de pessoas. No concerto econômico de qualquer nação, esse apreciável volume financeiro seria, certamente, muito eloquente e expressivo mas, no caso do Brasil, ainda está muito aquém das nossas verdadeiras potencialidades. E é fácil explicar por quê.
Para um país com 600 milhões de hectares de terras agricultáveis e que dispõe de fatores e condições tão favoráveis como uma extraordinária oferta hídrica, uma notável biodiversidade ambiental e, mais do que tudo, um sol que brilha o ano inteiro, os números não são proporcionais. Prova disso é a nossa modesta safra de grãos, há longos anos estacionada no patamar dos 70/80 milhões de toneladas. Os EUA, com uma área agricultável de apenas 160 milhões de hectares, produzem 250 milhões de toneladas de grãos.
Na verdade, de há muito o Brasil já deveria ter alterado os rumos da sua perseguida prosperidade econômica, indo ao encontro da vocação natural de grande parte de sua população, que é a relação íntima, diuturna e consistente com a terra. Infelizmente, começamos a pensar grande na hora errada. Desde Juscelino, temos dado mais ênfase a uma valorização forçada das atividades industriais do que a um lógico, alternativo e gradual desenvolvimento das atividades ligadas à agricultura.
Optamos por trilhar a estrada iluminada de uma falsa prosperidade que acabou, infelizmente, legando-nos um imenso e traiçoeiro endividamento. De forma irrefutável, a globalização está provando que não precisaríamos ter investido tanto nesse maciço processo de industrialização para dinamizar a nossa economia. Automóveis, máquinas e equipamentos produzidos no exterior podem ser adquiridos hoje a custos muito mais baixos dos que conseguimos fabricar aqui e, de quebra, ainda temos a garantia de que chineses e coreanos não deixarão que jamais nos faltem canetinhas, lâminas descartáveis, canivetes e uma infinidade de badulaques que eles podem vender a preços irrisórios, mesmo embutindo aquele odioso pedágio que já nos acostumamos a pagar aos nossos queridos e muy amigos vizinhos paraguaios.
O que adianta sermos a oitava economia do mundo se em vez de nos aproximarmos do famigerado G-7 vemos aumentar, cada vez mais, a distância que nos separa desse restrito e inatingível Olimpo da economia mundial?
Se fosse possível uma volta ao passado para trocarmos algumas das centenas de inúteis obras de infra-estrutura que nestes últimos 50 anos só ajudaram a engordar as contas suíças de muitos generais, políticos e empreiteiros, por investimentos produtivos na agricultura, na pecuária e em pesquisas agronômicas e de recuperação de solos, certamente poderíamos estar vivendo um outro momento econômico, com menos pobreza e mais empregos no interior.
Nos próximos anos, o governo acha que seremos capazes de produzir 140 milhões de toneladas de grãos e, em curtíssimo período, dobrar as exportações para chegar num utópico patamar de US$ 45 bilhões. Mas será que teremos fôlego e competência para enfrentar os exigentes mercados do Primeiro Mundo? Será que com a atual política agrícola poderemos produzir a custos competitivos, capazes de compensar os pródigos e paternais subsídios que a Comunidade Econômica Européia concede aos seus minifundiários e os EUA aos grandes produtores do Centro-Oeste do seu território? Não será, por acaso, mais inteligente e produtivo planejar e desenvolver uma política de incentivos visando o conjunto macroeconômico da agroindústria, que abrange todos os processos de industrialização dos produtos e matérias-primas que são geradas pela agricultura e pela agropecuária? Talvez seja agora o momento de se pensar nisso...
Nas últimas décadas, temos entendido a agricultura de forma apenas vertical, no plano primário de sua produção. Não fomos capazes de vislumbrar toda a sua latitude horizontal, como os europeus e americanos há longos anos o fazem. Já é hora, portanto, que a vejamos sob uma outra óptica mercadológica, valorizando com absoluta prioridade o seu corolário mais importante, a agroindústria, uma gama tão extensa de atividades e soluções sócio-econômicas que pode, em curtíssimo prazo, gerar milhares de empregos e diminuir em muito os perigosos conflitos gerados pelos movimentos dos sem-terra que transitam pelas estradas e que, na verdade, não passam de títeres de uma esquerda atocaiada e oportunista. E como vantagem complementar dessa racional opção poderíamos, quem sabe, reverter o avassalador processo dos fluxos migratórios, uma vez que poderíamos estar garantindo novas condições de vida aos rurícolas, estimulando-o a melhorar seu passadio e a buscar um padrão de vida mais saudável.
Para uma nação como a nossa, com um perfil demográfico tão diversificado é indiscutível que o mapeamento das potencialidades agroindustriais de cada região deva ser o passo básico para a racionalização de uma agricultura secundária de significativa importância econômica, capaz de abrir e conquistar novos mercados no mundo. Já está na hora de o governo criar uma Secretaria Especial da Agroindústria para desenvolver, de forma pragmática, uma política casada com Estados e municípios e que nos possibilite estimular novas e produtivas atividades nesse campo.
Nações como Argentina, Itália, Holanda, França, Bélgica, Espanha, Portugal e Suíça, entre outras, jamais deixaram de dar uma atenção diferenciada às atividades agroindustriais e a ver nelas um sustentáculo poderoso de suas respectivas balanças comerciais. Por que o Brasil não poderá fazê-lo também, investindo mais na produção dos agroalimentos e de dezenas de outros produtos derivados da terra? No âmbito do Mercosul, por exemplo, a escala de produtos agroalimentares brasileiros é muito superior à da Argentina, Uruguai e Paraguai e, no entanto, ainda não estamos sabendo tirar vantagem disso. Falta-nos homogeneizar e melhorar a qualidade desses mesmos produtos para tentar conquistar inclusive inúmeros outros mercados, hoje abertos em função de um irreprimível aumento mundial na demanda de alimentos.
Estamos convictos de que o Brasil poderá transformar-se, a médio prazo, numa grande potência mundial na agroindústria. As possibilidades regionais de geração de produtos agroindustriais são inúmeras. Há muito ainda a obter de produtos como a cana; fertilizantes naturais; carnes, conservas e embutidos; fibras e tecidos naturais; farináceos; matérias-primas de origem animal e vegetal; fármacos e especiarias; doces e conservas vegetais; óleos comestíveis e industriais; óleos e essências aromáticas; produtos lácteos; sucos e bebidas e muitos outros. E, certamente, também haverá muitos compradores internacionais à espera deles.
O Paraná, Estado de vocação eminentemente agrícola e que historicamente sempre batalhou pela expansão das suas fronteiras agroeconômicas, tem as condições ideais para implantar e desenvolver, de imediato, um grande e pragmático projeto direcionado especificamente para a agroindústria. Seu governo é lúcido e enxerga longe. Portanto, a hora é agora e não há mais tempo a perder.
- J. NATALE NETTO é jornalista e integrante da ADVB (Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil em São Paulo)





