A hora dos infantes - Marcos Henrique Guimarães
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 10 de dezembro de 1997
Marcos Henrique Guimarães 
Na Queda da Segunda República de Piratini, sugestivo título de páginas de O Cruzeiro de 25 de abril de 1964, que traz matéria sobre a chegada do presidente João Goulart (na matéria está ex) a Porto Alegre, um detalhe nos chama a atenção: o menino, de punho cerrado, que ali se encontra no lado direito da fotografia. Sabemos da história que o menino foi derrotado. Mas, o que podia um menino, com seus frágeis dedos fechados, contra a força dos exércitos, o ritmo das baionetas e o balé dos canhões na dança do Golpe ensaiado nas ruas e nos quartéis? Respondemos unânimes: nada! O menino não podia nada!
Trinta e três anos de sonhos adiados, centenas de meninos voltam pela rua sem nome, projetando as sombras nas pedras cinzentas como naquela manhã do pálido sol da liberdade. Malogrado milagre de 1970, descambo de 1980 e inverno de 1977: os pequenos mártires continuam tombando numa guerra sem trégua: candelárias, trabalho escravo, prostituição, vício, criminalidade. São quatrocentos mil que sucumbem diante da fome, anualmente, em nosso país. Uma menina de quatorze anos tenta assaltar um banco em Salvador. Revolta após revolta, nas casas de detenção de menores, abarrotadas. Os números e as manchetes proliferam...
Como na Revolução Industrial, o capital e a ganância não escolhem idades para o front: a mão-de-obra infantil é cada vez mais sinônima de baixos custos. Do sertão da Bahia ao interior de São Paulo, das minas de carvão à colheita de algodão: criança é lucro! A realidade urbana e rural difere muito daquela imposta pela mídia oficial onde o Rei canta o ABC ao lado de crianças robustas e a senhora Clinton abraça outras escolhidas a dedo. Num lance de prestidigitação o governo pretende resolver o problema educacional mandando uma TV para cada escola, como se isso transportasse o Brasil para o Primeiro Mundo, eliminando a falta de estrutura orgânica que passa pela má remuneração do professor e termina no processo de dilaceramento da teia social. O modelo exclui prioritariamente os pequenos de qualquer alternativa. O paraíso está na cabeça dos tecnoburocratas, com números flácidos, perfeitamente manipuláveis como a maioria dos índices deste país. Ou depois de Ricupero alguém ainda tem disposição para acreditar piamente nas estatísticas? Um exemplo claro disso são os atuais índices de desemprego: segundo o IBGE não passam de 6%, para o Seade-Dieese já ultrapassaram os 16%. Uma disparidade que se obtém muito mais pela má intenção do que pela metodologia utilizada. De concreto sabemos, pelo relatório do senador tucano (mesmo partido do Presidente) Jefferson Péres, que FHC gastou 8,6% a menos com educação e cultura em 1996 comparativamente a 1995. Ou seja, foram menos 877 milhões. Com saúde e saneamento a cifra sobe para menos 10,3%. No mundo Real, longe da pajelança dos números, existe a guerra: mães grávidas que, pelo contato com agrotóxicos geram filhos deformados, famílias vítimas da exclusão econômica que empurram seus filhos para a prostituição, mendicância ou trabalho escravo, desagregação social que explode nos índices de violência praticada contra a criança, descaso assistencial que chega ao cúmulo de uma mãe ser tirada da mesa de operação na hora do parto porque não tinha plano de saúde. E depois gasta-se 400 milhões no Real-publicidade para encobrir o Real-realidade: os fatos são constatados abrindo-se um jornal, adentrando-se num hospital público ou simplesmente dando uma volta pela periferia da cidade.
É dentro deste contexto que os infantes, Sem-Terrinhas, marcham. É diante de tais perspectivas que cerram seus fragéis dedos. Ou adquirem eles o direito de empunhar uma caneta para desenhar o futuro, possuem a terra trinta e três anos negada, ou enfrentaremos um exército dopado por cola de sapateiro e crack nas esquinas das grandes cidades. Os demagógicos que vociferam pela diminuição da idade de responsabilidade civil esquecem que a violência dos infantes é fruto de uma sociedade que se diz adulta mas historicamente negou sua responsabilidade para com as crianças. Para os sensacionalistas, vampiros da desgraça social, que sobrevoam os horários populares de televisão, pensadores de classe média imediatista e burguesia reacionária, é tudo questão de polícia. Logo teremos mais policiais que cidadãos e cadeias mais do que casas. Infantil, no mau sentido, é uma sociedade que não assume seus atos. Se as crianças, os Sem-Terrinha, marcham agora, é porque os adultos brincaram demais. Os papéis se inverteram: crianças não nasceram para marchar ou trabalhar, muito menos para serem beijadas por políticos oportunistas! Mas agora elas marcham, em lugar dos adultos, e quiçá seu marchar nos redima, nos converta, nos transforme. Afinal, quem não se dobra diante do olhar salgado de Sebastião? Elas estão ali, debaixo das lonas pretas, flagradas no mesmo instante eterno que captou àquele outro menino que nos chegou das ruas de Porto Alegre. Lá, eles pediam armas. Aqui, um pouco de terra e dignidade. O que diremos? O que faremos trinta e três anos depois, quando no perguntarem?
Enquanto o Brasil de FHC diz: Vinde a mim globalizados e os capitais especulativos, continuarão as crianças do Cristo pagando a conta dos milhões subtraídos da Reforma Agrária, da educação e da saúde? Vamos esperar o país crescer (a dois por cento ao ano), esperar o frango e a dentadura símbolos da modernidade, esperar os grandes exportadores prosperarem, esperar os bancos estabilizarem, os megainvestidores se recuperarem, vamos esperar o bolo crescer (como já esperamos vinte anos de ufanismo dos militares, os cinco anos de transição de Sarney, os dois anos de confisco de Collor, os dois de namoro de Itamar e os três de dentaduras e frangos de FHC)... mas o bolo já cresceu, o bolo está transbordando no prato e sempre as mesmas migalhas? Caíram os celebrados muros, mas não aqui: os muros da mortalidade infantil, da distribuição de renda, do analfabetismo, da exclusão social...
O tempo das promessas acabou e a força que leva o passo dos infantes trinta e três anos traídos, rouba as palavras do nosso melhor poeta: Des-traídos venceremos!


