A hora dos figurantes mudos - Paulo Augusto
Paulo Augusto
Com a crescente evidência de que o crime organizado adentrou o Poder Público, com a revelação de verdadeiras quadrilhas de delinquentes a comandar a administração pública, exige-se cada vez mais do cidadão comum que se torne um investigador e um sentinela a defender-se a si, à sua família e ao patrimônio público, assumindo para si próprio as funções de polícia, uma instituição que vemos falida em diversos quadrantes do País.
Não demora muito, e o homem comum de nossa sociedade ou seja, o homem das ruas irá perceber que a delinquência na sua forma mais pura e brutal, e o reino da mais absoluta falta de moral e padrões éticos alcançou os patamares da oficialidade, instalando-se nos palácios e gabinetes. A CPI do Narcotráfico, se outro mérito não tiver, pelo menos tornou visível a rede nacional dos criminosos instalada no Poder Público, tornando visível a máfia das máfias.
Percebe-se que, no Brasil, quando se deseja fazer um trabalho sério e se suspende as conveniências e se quebram os corporativismos e protecionismos, o País avança passos gigantescos em busca da civilidade e de uma cara de nação séria. No caso da CPI do Narcotráfico, num único lance, a partir de um vereador de uma cidade paulista, veio à tona uma grande árvore do crime, cujos membros agiam nos bastidores com a cumplicidade de gente importante e a leniência da sociedade. Num único lance, viu-se que a rede do crime se estendia a 14 Estados, incluindo em suas ramificações tráfico de drogas, roubo de caminhões, grupos de extermínio, extorsão e todas as outras modalidades que o tornam irresistível.
Entre as revelações da CPI, conclui-se que existem pelo menos 200 mil pessoas no Brasil ligadas ao tráfico de drogas. O crime organizado, nesse sentido, apenas sob esse aspecto, já alistou um exército maior do que o Exército brasileiro. Informa o relator da CPI que o tráfico se infiltra na sociedade e nos Poderes, elege gente, indica juízes e, depois, só com uma guerra civil pode se livrar dele.
Tendo em vista as dificuldades enfrentadas pelo próprio Poder Público na vigilância e diligência contra a infiltração do crime em todos os poros do tecido social, como se vê no Brasil, ganha vulto e dimensão nova o trabalho desenvolvido pelas organizações não-governamentais e por pessoas que se dedicam a trabalhos comunitários, visando o bem comum sem interferência de políticos e partidos.
Verifica-se que uma boa parte do crédito para a democracia no mundo pertence às organizações não-governamentais, grupos de cidadãos independentes, cujo número cresceu de forma explosiva nos últimos dez anos e que marcaram presença na década de 90 por sua capacidade de influenciar decisões empresariais e políticas.
A maioria das ONGs opera como cão de guarda do setor civil frente a governos e empresas, monitorando a implementação de políticas ambientais, abusos de direitos humanos e controle de armas, direitos de minorias e desenvolvimento. Segundo o Worldwatch Institute, a proliferação de ONGs se deve a mudanças recentes na arquitetura econômica e política do mundo, com o aumento do poder das corporações transnacionais, num ambiente onde os governos têm cada vez menos disposição, capacidade e interesse em controlar essas corporações.
Para Susan George, uma americana naturalizada francesa que dirige em Paris o Observatório da Mundialização, a verdadeira virada da importância da sociedade civil se deu no ano passado, quando a pressão das ONGs impediu a adoção pelos países ricos do Acordo Multilateral de Investimentos (AMI), que daria direitos aos investidores estrangeiros acima das legislações nacionais.
É nesse cenário que se realizará em Belém, entre os dias 6 e 11 de dezembro, o 2º Encontro Americano pela Humanidade e Contra o Neoliberalismo. O encontro, realizado pela Prefeitura de Belém (PA) e pelo Centro Memorial Cabano, aguarda em torno de 1.500 delegados e mil participantes.
Para debater propostas contra o neoliberalismo e o processo de globalização econômica, esses militantes do mundo inteiro irão acampar em ginásios, escolas e áreas abertas de Belém. Vão participar dos debates desde organizações guerrilheiras, como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), organismos religiosos, como a Comissão Pastoral da Terra, além do Partido de Refundação Comunista (PRC) italiano, partidos políticos da esquerda brasileiros, o Movimento Nacional dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), o Movimento de Libertação dos Sem-Terra (MLST), além do Greenpeace, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e grupos indígenas.
O primeiro encontro foi realizado em Chiapas (região Sul do México), em 96. A página da organização do encontro na Internet é www.encontromaericano.com.br.
O evento dá uma guinada na postura subserviente dos excluídos e humilhados da Terra, tomando uma iniciativa que entorta a máxima de Etienne de la Boétie, escritor do século 16, frente ao poder hegemônico hoje no mundo, quando afirmava: Não me surpreendo que um homem queira ser rei de milhões de súditos. Mas não entendo o absurdo de milhões aceitarem ser súditos de um único tirano.





