Pensei, um dia, que ‘‘A Voz do Brasil’’ era a pior forma de atrocidade e destempero que o Estado podia cometer contra o cidadão, em qualquer parte do mundo. Mas constato, agora, que estava errado. Há coisa pior: este ‘‘horário eleitoral gratuito’’ que assola o País.
‘‘A Voz’’ da ditadura getuliana - velha de mais de 60 anos - já era suficientemente ruim no que representa de violência hereditária e cotidiana, que o Estado brasileiro se acostumou a infligir aos seus cidadãos/súditos. Mas, pelo menos, em relação a ela, havia uma atenuante e uma defesa: (1) era só no rádio, a TV estava isenta e, (2) tendo horário fixo (embora fosse o pior de todos, quando a maioria dos cidadãos da classe média estão dirigindo seus carros de volta para casa), era possível se defender, passando o rádio para o gravador ou o CD-player e tendo algumas gravações estrategicamente disponíveis para tais momentos.
Pois acabou. Agora, quando V. menos espera, o TRE ataca de horário obrigatório, através do rádio do seu carro, ou quando, em casa - com a família reunida - V. deseja assistir à programação da TV.
A primeira vez que me aconteceu, estava no carro e decidi, estoicamente: taí uma boa oportunidade para pôr o meu civismo em dia e ouvir o que os candidatos a cargos públicos executivos e legislativos têm a dizer.
Cinco minutos depois, arrependia-me. A sucessão de sandices, ditas e repetidas por criaturas inteiramente inadequadas para estar em liberdade - fora das prisões ou dos manicômios - quanto mais se candidatar a qualquer coisa paga com o dinheiro dos meus impostos, era inacreditável e - aparentemente - inesgotável.
Mudei de estação como quem nada das profundezas à superfície, em busca de ar. Mesmo programa. Mudei para FM - quem sabe não interrompem o programa de música clássica, afinal brasileiro precisa tanto de educação quanto de civismo - nada! A cadeia é onipresente como o Deus bíblico.
Estava chegando de viagem. E, por isso, também me ocorreu refletir que estranho país é o Brasil. Quando entrei no avião da Varig, em Frankfurt, a comissária avisou que, de acordo com as nossas leis, era proibido fumar durante a primeira hora de vôo. Pois essa determinação é única no mundo. Mesmo nos EUA, que são foco da mais fanatizada campanha antifumo de todas, ou se proíbe ou se permite fumar em aviões, mas proibir durante a primeira hora de vôo há quem entenda o porquê? Também somos o único país a utilizar um sistema PAL-M na televisão.
Do meu conhecimento, somos, também o único país mais ou menos desenvolvido a utilizar esse sistema de propaganda pré-eleitoral.
Lembro dessas coisas para tentar derrubar o argumento - aceito por muita gente - de que horário eleitoral gratuito é democrático. Se for, por que é que países muito mais democráticos do que o Brasil não o usam? Espaços eleitorais sem custo para os partidos e os candidatos podem, eventualmente, resultar de um objetivo democrático. Mas não obrigatório! Precisamos lembrar de que, ao tornar-se obrigatória - e só para a mídia eletrônica - essa idéia perdeu o direito de ser considerada democrática. E tremo de pensar no que poderá o governo ainda fazer para levar essa praga à mídia impressa.
O Brasil torna-se, com frequência, um país cansativo para o cidadão pensante. Com tantas mazelas - tiros perdidos que matam crianças indefesas, acidentes rodoviários que massacram dezenas de pessoas, filhos de banqueiros que mutilam nossos raros heróis olímpicos - por que, V. perguntará, perder tempo com algo como o horário eleitoral, que, afinal de contas, é passageiro?
E eu lhe respondo, como aquele poeta - brasileiro - que a liberdade começa na mais pequenina flor do nosso jardim, que ninguém pode admitir que a pisoteiem - sob risco de perder tudo que nos resta.

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