As mulheres estão cada vez mais se impondo, seja no trabalho, seja no lar. Dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE mostram que em 2008 o número de famílias chefiadas pelas mulheres foi de 21,272 milhões, o que representa 34,9% da população.

A assistente social Maria Inez Barboza Marques é estudiosa de gêneros e confirma: ''É uma tendência que as mulheres continuem assumindo como chefe de família.'' A coragem para sair de relações insatisfatórias, a nova configuração de famílias e políticas públicas explicam a tendência, de acordo com a pesquisadora.

O que explica o crescimento do número de famílias chefiadas por mulheres?
O estudo de gêneros trata de uma discussão social em que o espaço público é reservado ao homem e o espaço privado, de âmbito doméstico, é reservado à mulher. Mas isso é uma construção social, que no processo histórico foi se solidificando, mas que não é verdade.

O homem não encontra o mesmo espaço que talvez encontrava em outros tempos no mercado de trabalho. Isso vem fazendo com que a mulher assuma a posição de chefia da família. Cada vez mais a mulher tem que ser a provedora da casa, quando não o idoso, com a aposentadoria. Também a configuração de família mudou muito. A gente não pode falar de família só formada por mulheres, tem as relações homoafetivas, outras formas de relacionamento que vêm se configurando nesse contexto.

A tendência é que esse número continue crescendo?
Sim, não só no contexto das famílias fragilizadas economicamente, mas em outros contextos também, até porque as mulheres hoje falam em ter filho independentemente de marido.

Apesar dessa participação no mercado de trabalho, a renda da mulher ainda é cerca de 30% menor. O que pode ou o que precisa ser feito para mudar essa questão?
Esse fenômeno vem da divisão sexual do trabalho, que relaciona-se exatamente a essa construção que falamos antes. As mulheres já vêm lutando para isso (equiparação salarial). Atualmente algumas políticas estão sendo implantadas em nível federal. Nós temos uma política nacional para mulheres, mesmo para a mulher que mora no campo, hoje existe o Pronafi (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) Mulher, existem alguns programas para atender essa demanda da mulher.

Projetos de lei destinam cotas de financiamentos para as chefes de família terem acesso à moradia popular. É uma forma de reconhecer a importância da mulher na nova família brasileira?
Isso inclusive está previsto no Plano Nacional de Políticas para as Mulheres, para que haja a inclusão da mulher nesse processo de ser a gestora da sua própria vida, para que ela possa gerir a família, filhos.

Poderíamos dizer que um dos fatores do aumento dessas famílias chefiadas por mulheres é que elas estão tendo coragem agora de se separarem, de deixarem um relacionamento no qual são oprimidas, sofrem violência?
Especialmente hoje com a Lei Maria da Penha, com as medidas protetivas e pelos programas de incentivo ao trabalho da mulher, cada vez mais elas vêm tendo condições de arcar com uma separação.

Quando é chefe de família, a mulher não conta com a ajuda do parceiro, diferentemente do homem. Isso é verdade?
Não posso afirmar porque ainda não temos esse estudo. O que podemos falar com tranquilidade é que o homem não encontra mais o mesmo espaço no mercado de trabalho. E que esse processo de exclusão e de seleção, que é do próprio sistema, pode levar a isso que nós chamamos de acomodação, que também pode ser uma constituição social.

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