A hora de cada um
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 07 de novembro de 2002
Walmor Macarini 
Um determinado caminho de tradição estabelece que o limite é o número 5. Nesse ponto levanta uma muralha. O discípulo percorre a trajetória do 1 ao 5, e diante da muralha se detém. Não imagina que além dela os números prosseguem. Ensinaram-lhe que o 5 é a dimensão máxima. Aquele que o ensinou também fôra discípulo, e assim, de discípulo em discípulo, sedimenta-se a tradição. Se alguém, que vislumbrou além da muralha, se aproxima e diz que há algo mais à frente e que o 5 não é o limite, será repudiado como impostor.
Propõe então abrir uma fenda nessa parede, para que o discípulo descortine o que existe adiante, mas ele se recusa, porque a sua linha de alcance se encerra ali. É-lhe dito que, para conhecer melhor o número 5, bom seria que conhecesse até o 10, mas ele não crê que o 10 exista e nem supõe o que seja. Desconhece, assim, a pequenez do 5. Desconsidera a idéia de que mais números existem ainda, além do 10, e nem o sensibiliza o aceno de que, conhecendo o que está além, lhe será mais fácil entender o aquém e a totalidade. Ele rejeita admitir.
Vai ficando velho e passa seu limitado conhecimento ao próximo discípulo. Que segue idêntica tradição e faz do 5 o seu ponto mais avançado. A muralha permanece. Inútil insistir, porque sua mente turvou-se. Ele se fanatiza pelo valor que conhece. Aquele outro que transpõe a muralha avança, vai adquirindo maestria, integra-se à plenitude dos números e assim alcança a compreensão do universo. Situa-se na integridade do todo e vê-se em sua real dimensão. Ao alcançar o entendimento do macro, passa a compreender também o que se deteve diante da muralha e a sua razão, eis que para este ainda não está chegada a hora. Ou terá sido em vão galgar tantos degraus e não olhar com benevolência aquele que não atingiu o mesmo avanço e estacionou na caminhada.
Porque tudo tem o seu momento. Da germinação da semente à plena florescência decorrerá um tempo. Assim com as pessoas. Algumas nem têm ainda consciência da existência da semente, e a outras falta a vontade de lançá-la à terra. Como alguém que chega a uma biblioteca e lê um único e determinado livro e proclama que todo o restante do acervo é abominável. Ainda que o mesmo autor daquele livro haja dito algo mais, em outros livros e com novas palavras, esse fanático ledor se recusará a essa busca e cerrará seus olhos e ouvidos.
...Até que chegue o momento de abri-los. Para alguns a demora é longa. Pode não acontecer em uma existência e às vezes nem em várias delas. Aos que transpuseram os limites da muralha não é lícito forçá-los à compreensão. Mas passar adiante palavras de conhecimento e ir acendendo luzes pelo caminho é dever dos que estão conscientes da missão e da capacidade de fazê-lo.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


