Não tenho nada a ver com isso, mas se fosse o presidente Fernando Henrique Cardoso falava menos em público e negociava mais em particular. O governo está nervoso, o mercado neurótico e as pessoas, mesmo as que apóiam a administração FHC, estão perplexas ou decepcionadas. Nos últimos dias, o chefe do governo tem aparecido na televisão para dar notícias ruins e criar expectativas que vêm sendo desmentidas, pelo mercado, com velocidade espantosa. A figura do comandante sereno que tinha certeza do rumo e visão de mundo está sendo corroída pela crise.
Não importa mais discutir os motivos da confusão econômico-financeira em que o Brasil se meteu. Gustavo Franco está descansando em Itaipava, aprazível local na Serra de Petrópolis, perto do Rio. O resto do País suporta, em época de férias, os desacertos por ele provocados na economia nacional. Mas o que está feito, está feito. A crise chegou e providenciou espaço para que o Fundo Monetário Internacional tenha escritório em Brasília. Na prática, o Ministério da Fazenda está mudando de mãos.
Os negociadores, articuladores e pensadores que cercam o presidente precisam perceber que a crise é política. Tem repercussões econômicas, mas deriva da desconfiança que o investidor cultivou em relação ao governo brasileiro. O governo deve governar. Desculpem-me o pleonasmo, mas o governo não tem governado nesses dias de janeiro. Por intermédio de seus porta-vozes, tem produzido frases desencontradas e provocado enorme confusão na vida das pessoas comuns. A desastrada condução da economia produziu dívidas monumentais, juros estratosféricos e um desemprego sem paralelo no País. Agora, estão chamando a inflação. É demais.
Não se ganha nenhuma guerra com nervosismo. Aliás, mesmo nas ocasiões mais graves os grandes estadistas mostram comportamento tranquilo. De Gaulle enfrentou com serenidade o chienlit, em 1968. Aqui, no trópico, a cada crise econômica corresponde uma profunda crise política. A situação das finanças nacionais, ninguém se iluda, é ruim. Ficará pior se o governo passar para brasileiros e investidores estrangeiros a sensação de que não consegue administrar seus problemas.
Vivemos tempos estranhos. A bolsa cai em um pregão 15 pontos. No dia seguinte, sobe 33. Isso não existe em lugar nenhum do mundo. Os nervos estão à flor da pele. Acabou a racionalidade. O Congresso prepara-se para aprovar tudo o que o governo lhe enviar. O receio dos parlamentares é de que sobre eles recaia a responsabilidade de uma eventual falência nacional. Leis, impostos e decretos mudam com enorme rapidez. Ninguém lê o que está votando, ninguém sabe, ao certo, o que está fazendo. É a outra face da histeria.
Duas pragas assolam, periodicamente, a América Latina: câmbio sobrevalorizado e populismo. Um é consequência do outro. O governo FHC bateu de frente com a primeira praga. Deverá tomar enormes cuidados para não se confrontar com a segunda. Em épocas de dificuldade surgem salvadores da pátria com discurso inflamado e soluções prontas. Mas este pode ser o momento certo para surgir o estadista que projete seriedade e confiança sobre a sociedade. O País precisa, agora, mais de líderes que de economistas. Nova decepção política terá efeito ainda mais devastador que a atual crise econômica. É a hora da estrela.

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