Esse papo está qualquer coisa. Corremos o risco de ter depoimentos nas Comissões Parlamentares de Inquérito com depoentes mudos. O sujeito chega, pode até dar bom-dia ou boa-noite para os presentes, e depois boca de siri. A cada pergunta que é feita a resposta é o silêncio total. O convidado pode até olhar para o teto, assobiar ‘‘A Marselhesa’’, esboçar um meio sorriso de desdém mas palavra, respostas que é bom nada. Zíper na boca.
Uma moda que foi lançada pelo ex-presidente do Banco Central, Francisco Lopes, que foi preso por causa disso, passou algumas horas na sala da Polícia Federal, pagou R$ 300 de fiança e foi dormir tranquilo com os anjos. Muita gente adorou. Alguns do governo acharam fantástico. Melhor a mudez do que a imprevisibilidade do que poderia ser dito, sem contar que depois viriam as interpretações.
Agora já tem gente pensando em adotar o mesmo modelito ‘‘depoente nada a declarar’’. O dinheiro público passa por uma rápida transformação, se torna privado, e ninguém se manifesta. No máximo mandam uns calhamaços ininteligíveis para justificar. E partamos para outra porque o Brasil não pode parar.
É claro que toda pessoa tem o direito de não se autoacusar. Mas ficar quieto é confissão de culpa em outros países. Aqui, parece que tudo bem. O único problema são as consequências. O espetáculo promovido por Chico Lopes desmoralizou o Senado. Será que os senadores vão abaixar a cabeça, lamentar as contingências da vida e encerrar o assunto? É evidente que não. Tanto que já providenciaram uma nova convocação para Chico Lopes e estão doidinhos para chamar o chefe - o ministro da Fazenda Pedro Malan.
Os senadores, na verdade, estão indignados. Muitos deles que estavam apascentados agora querem ver sangue. Acham que uma das funções básicas do Congresso, que é a de fiscalizar, foi desmoralizada. E aí é que pode morar o perigo, porque Chico Lopes em sua reprise na CPI pode não dizer nada que o incrimine, mas pode dar indicações de que ele não é o único anjo caído dessa história toda, pode contar coisas feias que não se dizem por aí.
Outro detalhe que passou despercebido pelo pessoal, que achou uma graça louca na atitude de Chico Lopes, é que ele sutilmente deixou para outros contarem o que aconteceu. Porque dessa vez vai ser difícil varrer para debaixo do tapete os bilhões que saíram das instituições financeiras do governo, como o Banco do Brasil, para sustentar os charutos cubanos os supostos ingleses e a arrogância daqueles que se imaginam os senhores do mundo e por isso a lei não chega até eles. O que até agora - é bom que se diga - é absoluta verdade.
O interessante desta história é que ela não tem mocinhos. Os que apostaram contra ganharam rios de dinheiro. Os que jogaram a favor (não se sabe porquê, já que a coisa era óbvia) foram ressarcidos dos seus prejuízos. Aliás, foram poucos e nem por isso bons os que apostaram na palavra oficial.
Espera-se agora uma atitude mais firme do governo, que se tiver essa atitude tem chance de recuperar porque está no começo do mandato. E, espera-se também providências do Senado para não se apequenar. Senão corre-se o risco ‘‘do sol transformar em pedra a lama que trouxeste pro meu lar’’, como diria sem pejo o filósofo Nelson Cavaquinho.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo

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