Gosto de relembrar as estórias que meu pai contava. É uma forma de mantê-lo presente, de certa forma, em minha vida. Narrar ‘‘causos’’ era seu passatempo favorito, principalmente aqueles que envolviam personagens como juiz, promotor e advogado, envoltos em suas solenes vestes talares. O Tribunal do Júri, com seu ritual beirando o místico, era o alvo de sua maior devoção. Era como se caísse em transe quando descrevia um julgamento perante o corpo de jurados. Alterava a fisionomia e a voz, quando falava pelo promotor ou pelo advogado. Ao representar o juiz, demonstrava sublime serenidade ao proferir o veredito, mas também autoridade e firmeza, ao repreender acusador e defensor, quando se excediam em sua arenga, advertindo-os de que se tratava ali de um Tribunal, não de um circo. Que pena que ele, meu pai, se foi! Eu também teria, agora, tantas estórias para lhe contar... estórias verídicas, de que fui protagonista, sob a pompa e solenidade da toga de magistrado. Mas a estória de hoje foi contada por ele...
No salão do júri, o réu, algemado, sentado entre dois policiais fardados, perante o juiz. Estava sendo julgado por crime de homicídio qualificado (motivo fútil), ou seja, assassinato a sangue-frio. Terminada a fala do promotor de Justiça, fez-se demorado silêncio. Depois de tão bela peça de oratória e de eloquência, a platéia, curiosa, mal podia conter-se até ouvir os argumentos da defesa em face dos irrespondíveis termos da acusação, que retratou o réu como o mais vil dos facínoras.
Levantou-se então o advogado de defesa, num gesto solene, empertigando-se todo dentro de uma beca nova, adornada de babados e rendas. Voz afetada e rouquenha, assim se dirigiu ao magistrado, gesticulando exageradamente, em desafinado sotaque ‘‘baianês’’: ‘‘Excelentíssimo senhor doutor Ladislau de Souza Brito, meretíssimo juiz de Direito de Caculé, a mais afortunada de todas as comarcas da Bahia, por ter um magistrado da envergadura de Vossa Exelência, exemplo de cultura, de independência e de justiça!’’
Nessa altura, fez uma pausa, contemplou um vez mais a assistência silenciosa e tomou vagarosamente um gole d’água. Enxugou os lábios com um lenço colorido e falou, voltando-se para o juiz: ‘‘Excelentíssimo senhor Ladislau de Souza Brito, meretíssimo juiz de Direito de Caculé, a mais afortunada de todas as comarcas da Bahia, por ter um magistrado da envergadura de Vossa Exelência, exemplo de cultura, de independência e de justiça!’’
Nova pausa, olhou para a assistência e bebeu mais um gole d’água. Repetiu o ritual com o lenço e ensaiou a mesma cantilena: ‘‘Excelentíssimo senhor Ladislau de Souza Brito, meretíssimo juiz de Direito de Caculé, a mais afortunada...’’ Nesse ponto, foi interrompido bruscamente pelo Magistrado, com estrondoso murro na mesa: ‘‘Ou Vossa Excelência pára com essa palhaçada, ou serei obrigado a cassar-lhe a palavra. Se persistir, mandarei retirá-lo do recinto!’’
Conseguira irritar o juiz... Era tudo o que queria. O advogado, definitivamente, roubou a cena, voltando-se teatralmente para o júri: ‘‘Viram, senhores jurados?! Os senhores viram como um homem equilibrado e justo pode perder por causa de simples conceitos repetitivos! Principalmente, quando tais conceitos são desairosos, ofensivos a sua degnidade... Aqui, neste Tribunal, eu estava apenas tecendo elogios - merecidos, aliás - ao meretíssimo juiz. E, mesmo elogiando, repetidamente elogiado, Sua Excelência se irritou, exasperou-se, a ponto de perder a serenidade que lhe é peculiar. Mas, é compreensível... Sejam, pois, complacentes com o nobre magistrado e não lhe condenem o momentâneo descontrole emocional. Mas, sejam também indulgentes com este pobre diabo (disse, pousando afetuosamente a mão no ombro do acusado) que, não bastasse a desgraça de ter nascido com irremediável defeito físico, ainda teve de suportar por dias, semanas, meses e anos a zombaria da vítima, vizinho desalmado que tripudiava do réu, apontando: Lá vai o caxingó! Olha o manquitola! Deixa que eu chuto! Durante 99 vezes, quem sabe, o coxo teve paciência. A centésima vez, porém, foi a gota que faltava: pegou uma garrucha velha e desferiu um tiro no algoz. Sim, porque a vítima não morreu! Quem morreu foi o carrasco! A vítima está aqui: este pobre homem, que não tem a cultura e o discernimento do meretíssimo juiz, mas que, além de tudo, está condenado a carregar, vida a fora, o aleijão congênito, sendo alvo de brincadeiras e caçoadas. Senhores jurados! O que lhes peço é mais do que justiça: é piedade para esta pobre vítima da sorte, vítima do preconceito, vítima de si mesmo! Rogo-lhes absolvição para este infeliz!’’
Por unanimidade, os jurados absolveram o réu.
- ALBINO DE BRITO FREIRE é juiz de Direito e professor em Curitiba

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