A hipocrisia procriando nos campos do Senhor...
Foi com e pelo Mais Médicos que se atendeu demanda histórica das periferias
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 22 de agosto de 2025
Foi com e pelo Mais Médicos que se atendeu demanda histórica das periferias
João Gomes Filho 
Leio, na rede mundial, que o presidente estadunidense anuncia intenção de sancionar o Brasil uma outra vez, agora na conta de nosso programa de saúde em parceria com Cuba (Mais Médicos), naquilo que tal parceria estaria significando exploração laboral/humanitária de cidadãos cubanos – trabalho forçado.
Trata-se de uma mentira requentada. Na ocasião da implementação do programa (2013) houve alguma grita da direita (não era extrema, mas ainda assim recheada de gente sem compromisso com a verdade) que aventou a hipótese do suposto trabalho forçado dos médicos cubanos. Esta mentira pôs a máquina a se movimentar e o Ministério Público do trabalho abriu investigação, culminando por afastar a hipótese, arquivando o procedimento.
Importante dizer que houve, sim, problemas trabalhistas pontuais com os médicos – todos resolvidos no âmbito do acordo firmado com o governo cubano.
De toda sorte, precisei ler a notícia com redobrada atenção, uma vez que não acreditei no que li da primeira vez. É que me desencanta tratar com hipócritas, de todas as nacionalidades e escalões de pertencimento social.
A falsificação da verdade, mascarada em dissimulação de intenções e sentimentos, são o que de pior se pode vender aqui e agora – notadamente em um mundo dividido pela exploração selvagem de pessoas e da natureza, onde as gentes vêm sendo, via de regra, estigmatizadas por sua origem, cor, credo, gênero, orientação e outras mazelas mais, preponderantemente em solo pilgrin...
É sobre a necessidade de operar, política e socialmente, com arrimo na verdade, pois, que se trata este singelo apontamento. Assim, lembro que o Mais Médicos é um programa que foi implementado no governo da presidenta Dilma Rousseff com objetivo de ampliar o acesso à saúde pública por aqui.
Notório o acerto do programa. Foi com e pelo Mais Médicos que se atendeu demanda histórica das periferias – contrário senso da visão elitista de nossa primeira classe econômica, o subúrbio não existe apenas para abastecer os postos de emprego que as demandas do capital proporcionam.
Nas periferias proliferam de sonhos a realidade da vida, e é responsabilidade do Estado tornar a existência menos invisível, mais inclusiva, não tão sofrida, bem mais palatável – afinal, viver deve ser mais, muito mais, que abastecer o mercado e suas demandas acumulatórias...
O programa existe desde 2013. Porque somente agora, doze anos depois, o mandatário pilgrin investe contra ele, notadamente em sua segunda volta por Casa Branca?
Pior que a investida é a seletividade pilgrin: se ataca o programa brasileiro, porque segue aplaudindo o mesmo programa em Itália, por exemplo? Será porque Giorgia Meloni é colega de Trump no clube de extrema direita?
Pior que a seletividade é a hipocrisia: como olhar para o cidadão cubano e entendê-lo passível de exploração político/humanitária e, ainda assim, continuar impondo odioso embargo político econômico à Cuba, por mais de sessenta anos?
Resumo de uma ópera bufa: o mandatário estadunidense anuncia sansão econômica em desfavor do Brasil, sob uma justificativa mentirosa (exploração político/humanitária dos médicos cubanos), ao tempo em que convive com aliados ideológicos (Itália) que mantém o mesmo programa com os cubanos, que desconhece enquanto sujeitos de direitos há mais de sessenta anos...
A hipótese desanuvia o alcance do verso imortal (‘a mão que afaga é a mesma que apedreja’) de Augusto dos Anjos, emprestando-lhe novo significado (no amesquinhamento de seu alcance metafórico), naquilo que a força motriz da construção poética guardava identidade com o espectro telúrico dos dias de entressonho do poeta simbolista, enquanto a hipocrisia de Trump não é senão um atestado de desilusão humanitária, conquanto tutela a idiotização dos que aplaudem o absurdo ora sancionado pelo governo estadunidense – muita desilusão para pouca esquina, diria meu amigo mineiro...
Nesta toada, onde hipocrisia e geopolítica abraçam o plano maligno de expurgar a humanidade dos humanos, Neil Gaiman não faria melhor, em que pese seu passe livre nos domínios do entressonho...
Não seria hora de combatermos com mais ênfase o discurso boutique dos trompistas, notadamente quando a plataforma maga (make américa great again) dá claros sinais de que pretende ir além de sua desventura fascista?
Em contraponto sugiro estabelecermos os termos do MOFA (Make Orwell Fiction Again), ainda que apenas para desenhar uma linha de sanidade sobre o mal e a ignorância – uma vez que fascista sempre foi e sempre será combatido com a luz da espada.
Tristes trópicos, onde há quem jogue contra os interesses e conteúdo nacional para salvar a pele de sua família, enquanto um bando de lambe botas segue a caravana dos tolos idiotizados ao som do berrante da traição.
Saudade, pai.
João Gomes Filho, advogado
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