Se há uma coisa que me deixa enfezado ao extremo é a hipocrisia religiosa, é o ódio escondido sob a capa do amor, é a crueldade sob a capa da bondade, é o farisaísmo, são ‘‘os sepulcros caiados, que, por fora, são belos e limpos, mas, por dentro, estão cheios de toda sorte de imundície’’.
Recentemente houve, em nosso país, um lamentável show circense em torno do aborto. Ativistas contrários ao aborto moveram céus e terra para persuadir uma menor e sua família a não fazer o aborto legalmente permitido em casos de estupro. Nos vários palcos em que o show foi apresentado, a palhaçada foi a mesma. Em episódios desse tipo, alguns palhaços sabem exatamente por que estão se prestando ao papel, que lhes haverá de render publicidade ou votos. E tudo sob o manto respeitável de coisas sagradas, como Deus e bondade religiosa. Mas a maioria são inocentes úteis, ou melhor, bestas úteis, que abraçaram a causa dos que ainda não nasceram, como se movidos fossem pelo amor. Qual o prêmio que levam? O prêmio é a falsa sensação de ser bom, de amar ao próximo, de merecer o céu.
Se esses palhaços tivessem amor no coração, estariam empenhados com igual energia em tirar da rua, da miséria e da desesperança as crianças que já nasceram, vítimas ou não de estupro. Estão fazendo isso? Claro que não! E por que não? Porque dá um trabalhão danado dedicar-se a crianças já nascidas. Cansa a beleza de qualquer um. Defender nascituros é muito mais fácil. Você só precisa odiar os que são a favor do aborto. Não precisa de nem um tiquinho de amor por ninguém. Nem mesmo pelo nascituro!
Assim você engana quase todo o mundo. Você espuma pela boca e faz caretas horrendas de ódio, enquanto outros bestas pensam que o seu coração está cheio de amor, de Deus, de religião. Não é fácil? Você não precisa amar a vítima de estupro, nem amar a gestante de alto risco. O amor até atrapalha, nesses casos. E, afinal, elas já nasceram. Que se danem! Você só ama a quem ainda não nasceu. Se a vítima de estupro suporta ou não o filho de seu estuprador dentro do ventre, por que você iria se importar? Se a gestante de alto risco morrer ... morreu. Você sempre pode livrar-se de sua consciência, dizendo que Deus assim o quis. Foi a vontade de Deus, pronto!
Por outro lado, abraçar a causa dos meninos de rua, dos sem-teto, dos sem-escola, dos favelados, dos mortos-de-fome, dos mendigos, dos sem-nenhuma-esperança, dos aposentados do INSS, dos desempregados, dos que têm mais de 45 anos e perderam o emprego ... Isso não dá para encarar, dá? De jeito nenhum! Que trabalhão mais danado! Você e eu, hem? Estamos fora, né? Para encarar essa empreitada, é preciso amor de verdade. Amor de mentirinha aqui não funciona, não!
Agora você me pergunta: ‘‘Então você é a favor do aborto?’ Confesso, para sua surpresa, que ainda não tenho uma posição definida. Este assunto é tão complicado para a minha cabecinha oca, que ainda não cheguei a uma conclusão sobre se defendo ou se condeno o aborto. Mas uma coisa eu sei. Eu sei que devo respeitar a opinião da mulher que quiser abortar. Sei também que devo respeitar a mulher que não quiser abortar. Num assunto tão polêmico e complexo como este, cada grávida deve decidir por si mesma, seguindo os ditames de sua consciência.
Mas se você quiser fazer valer a sua vontade neste assunto, então engravide e resolva o que fazer. Só não me venha com essa história de que tem tanto amor no coração que seria até capaz do sacrifício de queimar na fogueira todas as mulheres que abortaram ou que querem abortar. Essa linda história de amor não cola mais. Já demonstrei a sua hipocrisia. Lembra-se de como Cristo tinha bronca de hipócritas? Então prepare a bunda para levar divinas chineladas.
Arrependa-se e renuncie a Satanás! Ou você ganhará o céu ... da boca da onça!

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