A herança de Pinochet Arlete Salvador A liberdade concedida ao ex-presidente chileno Augusto Pinochet por causa da saúde suscita sentimentos contraditórios. De um lado, fica a sensação de impunidade e injustiça. Não se sabe o número exato de pessoas mortas durante o seu governo, mas é certo que sob o comando de Pinochet se instalou no Chile uma das ditaduras mais cruéis que o mundo já viu. Torturas e assassinatos foram práticas rotineiras no país nos anos 70. De outro, a decisão traz alívio e conforto. Ao considerar as frágeis condições de saúde de Pinochet para poupá-lo de um julgamento, a humanidade pautou-se por critérios de justiça e respeito que o ele próprio nunca teve para com suas vítimas. De certa forma, a humanidade (da qual todos fazemos parte) agiu melhor do que ele. E isso é algo para ser comemorado. Sob as ordens de Pinochet, jovens, mulheres e crianças foram torturados e mortos sem nenhum tipo de julgamento. Foram sequestrados, atirados ao mar, mutilados, separados das famílias e mortos por motivos particulares de um Estado que Pinochet montou por conta própria, sem consulta os cidadãos que dizia representar. As vítimas da ditadura chilena não tiveram direito a advogado. Não foram ouvidas. Não se lhes considerou o estado de saúde, a idade ou a capacidade de compreensão da realidade. Nunca se ouviu de Pinochet uma palavra de arrependimento. Ao contrário. Ele sempre se mostrou convicto do que fez. É natural que um homem assim desperte ódio, desprezo e desejo de vingança em quem desenvolveu um mínimo conceito de respeito aos direitos humanos. Parece profundamente injusto que ele caminhe livre, amparado por médicos caríssimos e impune – principalmente, impune. Entretanto, não há razão para que os que esperavam vê-lo julgado pelas atrocidades cometidas se sintam derrotados. Ao contrário. Saíram eles vitoriosos desse longo processo e doloroso processo. Pinochet teve acesso a todos os direitos que negou aos inimigos. Só isso já significa a afirmação dos valores democráticos que a ditadura Pinochet sufocou. Regimes como o que ele criou não nos servem mais. As razões pelas quais ele foi libertado – está velho e debilitado – reforçam ainda mais essa idéia. É demonstração de respeito aos direitos humanos, mesmo que o depositário desses direitos não os mereça, tanto pela frieza com que cometeu seus crimes no passado quanto pela insensibilidade demonstrada no presente pelas dores dos torturados. Perdoar o criminoso não significa, necessariamente, perdoar e aceitar o crime. É sinal de grandeza humana, a mesma que Pinochet nunca teve. O ex-presidente me parece mais digno de pena do que de raiva. Seus métodos, felizmente, não criaram herdeiros. - ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo