Passadas as eleições que levaram cerca de 85 milhões dos 106 milhões de brasileiros às urnas, a pergunta que ocorre ao eleitor é se o País que o presidente Fernando Henrique Cardoso vai ‘‘herdar’’ para o segundo mandato está melhor ou pior do que quando ele assumir o cargo, em janeiro de 1995.
Ao receber a faixa presidencial das mãos de Itamar Franco, Fernando Henrique tinha como panorama a estabilização econômica que, iniciada em julho de 1994, com o Plano Real, estava em pleno vôo: a inflação contida, os preços começaram a descer a ‘‘ladeira’’. Papel decisivo nesse processo tiveram o achatamento salarial, principalmente da classe média, e a concorrência dos produtos alimentícios provenientes do Mercosul.
Tal cenário era mais do que favorável para o governo atacar a principal causa do longo processo de crescimento da inflação, iniciado na década de 80: o descontrole dos gastos públicos. Para isso, era preciso fazer as reformas constitucionais (da Previdência, fiscal e tributária, administrativa e política). Timidamente, algumas delas foram iniciadas, mas logo tiveram de ser esquecidas em função do objetivo maior da reeleição.
O adiamento das reformas coincidiu, em novembro de 1997, com a primeira crise financeira da economia globalizada, a qual, em setembro deste ano, agravou-se com o calote que a Rússia deu a seus credores externos. Este segundo momento da crise acertou a economia brasileira em cheio: desemprego elevado, em função do ajuste estrutural da indústria; déficits comercial, em transações correntes e no balanço de pagamentos e câmbio sobrevalorizado.
Até meados de 1997, as coisas pareciam estar sob controle (mesmo sem ter sido concluída nenhuma das propostas); mas, de repente, a situação deteriorou-se numa velocidade tal que, em menos de um mês, a economia passou a depender quase que exclusivamente de fatores externos. Isso serviu para mostrar que o controle era apenas aparente.
Este é o cenário que espera FHC, o primeiro presidente reeleito de maneira consecutiva em nossa história.
O ajuste fiscal de emergência terá de ser feito e aprovado até dezembro, quando se encerram os mandatos dos atuais deputados federais e de um terço de dos senadores. Isso significa que o governo terá de agir com presteza e sem vacilações.
A expectativa cívica com que a população foi às urnas, votando para melhorar o País, não pode ser frustrada pelo governo, com medidas que onerem, mais ainda, a combalida situação das pessoas e das empresas. Por exemplo, não é admissível o propalado aumento de impostos num ambiente recessivo pois, se isso ocorrer, a quebradeira será inevitável. Mas como melhorar o País se o governo, que acaba de ser reeleito, manda dizer, por ministros e assessores, que a única saída é arrecadar mais?
Por sua vez, o novo Legislativo Federal (Câmara e Senado), que tomará posse em 1999, terá representação inversamente proporcional à densidade demográfica do País. Às regiões Norte e Centro-Oeste, por exemplo, que em conjunto, têm pouco mais de 10% da população brasileira, caberão nada menos do que 40% das cadeiras do novo Congresso/
Mas e o Judiciário? Bem, esse poder não depende de eleição e nem dos dois outros. Por isso mesmo, um alto magistrado da esfera federal elevou arbitrariamente o teto salarial máximo de seus pares. Um descalabro!
Esse é o País que espera por FHC.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM)

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