A Rússia é um país transcontinental com fronteiras no leste da Europa e no norte da Ásia. São 17 milhões de quilômetros quadrados, 11 fusos horários e mais de 10 mil quilômetros separam o oeste do extremo leste. Ao longo de séculos, a Rússia lutou em todas as frentes para expandir seu território sob a liderança de Pedro, o Grande, Catarina, a Grande, Nicolau I e Ivan, o Terrível. No auge da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – seu território chegou a ter 22,4 milhões de quilômetros quadrados.

Mas, em 1979, quando a URSS já enfrentava um período de estagnação econômica, Leonid Brejnev decretou a invasão do Afeganistão em apoio ao governo comunista local que estava ameaçado por rebeldes fundamentalistas. Foi um erro estratégico crucial. A guerra de guerrilha travada pelos Mujahideen (combatentes islâmicos) transformou-se, durante 10 anos, num sorvedouro de recursos e vidas para os soviéticos. Os fracassos e os prejuízos contribuíram para acelerar a desintegração da União Soviética.

Passados três décadas da derrota no Afeganistão, Vladimir Putin ordenou, em fevereiro de 2022, a invasão da Ucrânia, provocando um dos maiores choques contra a ordem global desde a Segunda Guerra, com risco de um conflito nuclear ampliado envolvendo países-membros da OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte. As consequências foram imediatas: A crise humanitária afetou 10,6 milhões de ucranianos – entre os deslocados internamente e os 6,8 milhões que fugiram para outros países; o corte do gás russo provocou uma crise energética sem precedentes na Europa; e a exportação de trigo e fertilizantes foi afetada, elevando os preços dos alimentos e pressionando a inflação mundial.

Com mais de 150 mil soldados, Putin acreditava que o governo de Kiev capitularia em poucos dias, que o presidente Volodymyr Zelensky seria deposto com a instauração de um governo pró-Rússia. Mas, passados quatro anos, os combates continuam a 1.200 quilômetros da capital. E o pior, estimam-se em mais de 1,2 milhão as perdas da Rússia entre mortos, feridos e desaparecidos, incluindo quase 7 mil oficiais.

A Rússia foi surpreendida pela estratégia da chamada “guerra moderna”. Enquanto Moscou acreditava na experiência dos seus veteranos generais (muitos morreram nas primeiras semanas de combate), Zelensky confiou no seu ministro da Transformação Digital, Mykhailo Fedorov - de apenas 35 anos, e que foi elevado recentemente a Ministro da Defesa. Fedorov, utilizando toda tecnologia disponível (inclusive com apoio da Starlink, de Elon Musk, e de países da OTAN) à base de inteligência artificial, criou um verdadeiro “Exército de Drones” com alto poder de destruição. Fileiras de tanques, navios e submarinos da frota do Mar Negro da Rússia foram atingidos por esse (quase) pequeno dispositivo voador. Mas o ataque mais espetacular e ousado ocorreu no início de junho do ano passado: A Operação Teia de Aranha utilizou 117 drones, operados remotamente dentro do território inimigo, para destruir 41 aviões militares, um prejuízo de US$ 7 bilhões para a Rússia.

Além do fracasso na trincheira, Putin sofre outras derrotas internas. A principal delas é a fuga maciça de jovens (o Kremlin admite 600 mil, mas fontes independentes apontam 4 milhões) para outros países para escapar da guerra. E mais, a BBC denunciou que estudantes de apenas 18 anos deixaram a escola e foram direto para as trincheiras onde muitos foram mortos. Entre 14 e 15 mil soldados norte-coreanos foram enviados para ajudar a Rússia - mais de 6 mil foram mortos ou feridos. O governo comunista da Coreia do Norte também despachou armas e munição para a Rússia. Já o Irã, antes de ser atacado por Israel, enviou 3 mil drones, principalmente do modelo Shahed-136. Era impensável que a Rússia um dia fosse buscar apoio da Coréia do Norte e do Irã para enfrentar a Ucrânia.

Até o prestígio naval russo naufragou. O submarino Novorossiysk, antes símbolo de ameaça silenciosa para os países inimigos, foi ironizado por líderes da OTAN ao ser visto, na superfície, cruzando mares com dificuldades técnicas. A falta de manutenção foi apontada como a causa que impedia o Novorossiysk de submergir.

Se a invasão foi para impedir a Ucrânia de entrar na OTAN, o tiro de Putin saiu pela culatra, pois os países europeus estão fechados com o governo de Kiev. E mais, depois de décadas de neutralidade, Finlândia e Suécia, em resposta à ameaça de Moscou na região, também entraram para a OTAN, a exemplo da Noruega, Estônia, Letônia, Lituânia e Polônia que já haviam aderido ao tratado de defesa.

Apesar de manter seu vasto território, a Rússia vive um isolamento diplomático, perda de influência geopolítica e uma degradação militar sem precedentes. Cada vez que é confrontado por um líder estrangeiro, Putin recorre à chantagem nuclear — o último e perigoso recurso do 'Velho Urso' que, sem garras e sem dentes, tenta camuflar o ocaso de seu país.

Edinelson Alves, jornalista

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