Por que a guerra na África? Muitas reputações acadêmicas foram construídas e destruídas na tentativa de responder a essa pergunta. Os especialistas referem-se a uma ampla série de causas primordiais dessa situação: a rivalidade entre as superpotências durante a Guerra Fria e o vazio geopolítico ocorrido ao seu término; a desigual incorporação da África à economia mundial; as divisões étnicas e religiosas; o legado do colonialismo, que criou conflitos; a debilidade dos Estados africanos; a ingerência estrangeira e a falta de interesse internacional pela África.
A teoria mais comum sobre a guerra talvez seja a de historiadores europeus, segundo os quais as guerras surgem como consequência dos cálculos (errôneos) dos líderes políticos. Quanto a isso, Niall Fergusson afirma em ‘‘The Pity of War’’ que ‘‘a Primeira Guerra Mundial não foi nada menos do que o maior erro da história moderna’’. Mas, não seria apropriado fazer um paralelo entre a Europa na primeira metade do século XX e a África atual.
Nossa hipótese de que a guerra é iniciada por homens que equivocadamente acreditam poder controlá-la e beneficiar-se dela é simples e óbvia. A história mostra que a guerra, uma vez começada, não pode ser controlada, e que raramente pode ser ‘‘ganha’’ de maneira significativa. Em quase toda guerra dos últimos cem anos, os vencedores, se é que existiram, foram os não-participantes. Mas, por que um líder político inicia uma guerra? Pode acontecer, por exemplo, que se chegue a um ponto em que um chefe militar sinta-se tão cansado pelas exigências da política que acabe dizendo: ‘‘Ao diabo com este processo político-diplomático. É extremamente lento e dificultoso. Tenhamos uma batalha e matemos algumas pessoas para solucionar tudo isto.’’
É provável que aconteça assim. E, também, provavelmente, esse militar sinta uma onda de emoção ao deixar seu futuro e, sobretudo, o de seu país nas mãos do destino. Então, é quando se afiança a decadência moral. A vida humana converte-se em um bem relativo. Propaga-se a lógica da guerra. A exigência de ganhar, ou de evitar a derrota, domina tudo. Quanto mais longo e sangrento for o conflito, mais alta será a aposta e mais difícil será terminar com ele. A guerra alimenta a guerra. O militarismo alimenta o militarismo.
A euforia da decisão e o orgiástico deleite de mandar jovens à morte com o passar do tempo se convertem no cansaço de estar preso num labirinto de confusão e desesperança. Não é fácil sair dessa armadilha: todo acordo de paz revela, em primeiro lugar, o equivocado da decisão inicial de ir à guerra e os valores degradados do homem que a tomou. Como a pessoa que iniciou essa guerra vai explicar que, depois de um acordo de paz, todos terão de voltar ao ponto de partida? A guerra, especialmente a guerra prolongada e cara, requer discursos de adequada envergadura e ‘‘grandeza’’ para dar uma dose de validade ao conflito, para manter no poder seus iniciadores e para justificar a legitimidade destes perante o povo.
Nada justifica o genocídio, mas é uma realidade histórica que o extremismo genocida em Ruanda se desenvolveu depois que a Frente Patriótica Ruandense invadiu o país, em 1990. Por sua vez, os sudaneses do Sul têm reclamações legítimas em matéria de autodeterminação e reivindicações bem fundadas historicamente. O extremismo islâmico explodiu e tomou o poder em Cartum depois que o Exército Popular de Liberação do Sudão (SPLA) iniciou sua rebelião. Do mesmo modo, o separatismo do sulista e o sentimento antiislâmico cresceu maciçamente depois do golpe nacionalista islâmico. Por sua vez, o nacionalismo eritreu foi nutrido no ferver da luta de 30 anos contra a Etiópia.
E na África, onde o equipamento para uma guerra pode ser muito caro e a máquina burocrática para uma conscrição em massa bastante ineficaz, os fazedores de guerras devem recorrer, para suprir essas carências, a escaladas ideológicas. A guerra também é uma oportunidade de ouro para a corrupção e um negócio caro.
Os militares africanos, em particular os soldados, geralmente não recebem retribuições suficientes para sequer manter suas famílias, mas, com as guerras, a situação é diferente. Sobretudo para os oficiais, apresenta-se a oportunidade de obter dinheiro para comprar um pequeno hotel ou belos carros ou conseguir benefícios que normalmente são destinados a militares em tempos de paz nos países industrializados.
O dilema do êxito da paz é que deve ser feita entre os próprios desalmados que provocam as guerras. A satisfação das exigências dos fazedores de guerras pode apenas deixar um país numa posição profundamente vulnerável, já que continuaria sendo governado por gente cuja personalidade, ideologia e história indicam uma perigosa tendência para começar novamente a guerrear. O desafio, a longo prazo, é a desmilitarização da política. Para isso, é preciso criar um ambiente no qual o uso da força com fins políticos não tenha mais nenhuma legitimidade. A ‘‘guerra mundial’’ da África é o maior erro do continente. Está nas mãos dos líderes africanos detê-la.
- ALEX DE WAAL é diretor da organização Justiça África

mockup