A guerra esquecida do Timor
A guerra esquecida do Timor
Marcos César Gouvea
A desintegração social e econômica da Indonésia ganha as manchetes do mundo. Aliados e financiadores do ex-tigre asiático abandonam o país rapidamente, pedem reformas e defendem o atendimento às aspirações do povo indonésio. Os grandes posam de grandes na Inglaterra e dão conselhos.
Mas quem, senão os grandes, criaram o monstro de Jacarta?
Não causa surpresa que, salvo uma ou outra exceção, os veículos da mídia ocidental ignorem, no todo da crise indonésia, a situação no Timor Leste.
Desde 1976 a Indonésia ocupou a antiga colônia portuguesa usando como subterfúgio o perigo vermelho. Teve o respaldo, o financiamento e o fornecimento de armas pelos grandes, principalmente os Estados Unidos.
A Grã-Bretanha, o Japão, o Canadá, todos apoiaram o gigante de 150 milhões de pessoas na anexação do pequeno território do Timor Leste, de apenas 800 mil habitantes.
Desde então, aproximadamente 40% da população timorense foi exterminada pela repressão, pela tortura, pela execução pura e simples. Os líderes timorenses, como Xanana Gusmão, estão presos em Jacarta. Mas a guerra de resistência no interior da ilha, com cerca de 1,5 mil homens contra 20 mil, se mantém.
Em Dili, o arcebispo Ximenes Belo corajosamente se coloca como um referencial apontando para a independência. Ele garante, inclusive, o ensino da língua portuguesa nas escolas da Igreja Católica, atividade proibida pela força de ocupação.
No exterior, o professor e jornalista José Ramos-Horta faz um trabalho paciente de diplomacia, procurando chamar a atenção para o Timor Leste. Um trabalho paciente, condescendente até, tal a indiferença dos países ocidentais.
O Brasil não é exceção. Os sucessivos governos brasileiros preferem ignorar que o Timor Leste existe, embora este seja uma espécie de irmão mais novo da comunidade portuguesa.
Os timorenses sabem tudo do Brasil: a cultura, o esporte, os governantes. Conhecem de Teixeirinha a Ronaldinho. Torcem desesperadamente pela seleção brasileira. Poucos brasileiros sabem onde fica o Timor.
É até irônico que a seleção brasileira de futebol conte com uma torcida apaixonada lá entre a Austrália e a Indonésia - e tenha sido comprada pela Nike. A mesma Nike que, como outras grandes multinacionais, explora a mão-de-obra barata na Indonésia, financiando também a ditadura de Suharto. A resistência maubere tem pedido no Ocidente que os produtos indonésios sejam boicotados. Mas quem os ouve?
Nem o Prêmio Nobel da Paz, concedido a Ramos-Horta e Ximenes Belo em 1996, parece ter modificado a omissão da comunidade internacional.
O Timor Leste foi anexado como a 27ª província da Indonésia. Não há diferença com o episódio Iraque-Kuwait. Há meia dúzia de resoluções da ONU determinando o fim da ocupação do Timor Leste. Por que não foram cumpridas?
A explicação foi dada por um diplomata australiano. Segundo ele, moralmente os países ocidentais deviam pressionar para fazer cumprir as resoluções. No entanto, a lógica do Ocidente não caminha por aí. O pragmatismo econômico, diz o australiano, determinou as ações ocidentais. Não interessou ao Ocidente apoiar o pequeno Timor Leste. O interesse maior sempre foram os negócios com o gigante de 150 milhões de habitantes.
O Brasil também foi covarde. Jamais, nesses anos todos, deu sequer um passo para socorrer o irmão menor. Preferiu exportar frango para a Indonésia.
E agora?
Agora os ratos abandonam o navio porque os negócios estão temporariamente suspensos. E o regime do ditador Suharto está por um fio.
Resta saber se a desintegração da ditadura de Suharto e o horror econômico indonésio vão dotar de alguma racionalidade os dirigentes daquele país e das Nações Unidas.
Resta saber se a esquecida guerra no Timor Leste vai entrar na pauta da ONU, na pauta da mídia ocidental, na comunidade portuguesa, no Itamaraty.
Resta saber se o drama vai adquirir visibilidade suficiente para que o povo maubere conquiste a independência.
MARCOS CÉSAR GOUVEA é editor de País e Mundo da Folha.





