A guerra dos sexos - Mansour Challita
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 18 de maio de 1999
Mansour Challita 
Quando se avaliar o século XX no seu conjunto, sua característica mais destacada não será, provavelmente, nem suas guerras nem seus robôs, mas a sensacional libertação da mulher de sua sujeição milenar ao homem.
Os séculos ecoam ainda as afirmações de que a mulher nada mais é do que uma empregada doméstica, um ornamento social e um divertimento sexual. Na maioria das sociedades antigas, a mulher era mera propriedade do homem. Na Índia, quando um homem morria, sua viúva devia suicidar-se para ir atendê-lo no outro mundo. Na maior parte da África, a base do casamento era a compra da mulher pelo homem - que podia, depois, revendê-la ou doá-la ou matá-la. No Império Romano, o marido tinha direito de vida e morte tanto sobre sua mulher como sobre seus escravos. Na Grécia, Aristóteles dizia: A mulher pode ser definida: um homem inferior. Enquanto a infidelidade do homem nem sequer era mencionada nos códigos, a mulher infiel era apedrejada ou degolada ou relegada a um desprezo definitivo.
Esses preconceitos e discriminações sobreviveram até o fim do século passado, mesmo nos países que se apresentam hoje como os campeões dos direitos da mulher. Na Inglaterra, até 1882, o marido podia bater na mulher (desde que a deixasse viva). Na Alemanha, Otto Weininger demonstrava que a mulher não tinha alma. Schopenhauer falou, no seu Ensaio Sobre as Mulheres, dessa raça de seres de estatura baixa, espáduas estreitas, quadris largos e pernas curtas. E Nietzsche aconselhava: Quando for visitar mulheres, não esqueça o chicote.
As religiões têm sido ainda mais rigorosas na sua discriminação à mulher. Todas elas faziam de sua sujeição ao homem um artigo de fé baseado na inferioridade nata da mulher. O Antigo Testamento a apresenta como um instrumento de tentação, levada por sua natureza a induzir o homem ao pecado: Acho mais amarga que a morte a mulher cujo coração são redes e laços e cujas mãos são grilhões. Entre mil homens, achei um, mas entre todas as mulheres, não achei sequer uma.
No Novo Testamento, diz São Paulo: As mulheres sejam submissas a seus maridos. E acrescenta: As mulheres devem permanecer caladas em todas as reuniões públicas. Por sua vez, o Alcorão proclama: Os homens têm autoridade sobre as mulheres, pelo que Deus os tornou superiores a elas. Na lei corênica, os direitos hereditários da mulher equivalem à metade dos direitos do homem, e diante dos tribunais o testamento de um homem vale o de duas mulheres. Nenhuma religião beneficiou a mulher com um impulso de liberdade sequer, afirmou a reformadora norte-americana Elizabeth Cady Stanton.
O que produziu de repente, no início deste século, o movimento de emancipação da mulher e sua rápida ascensão até o nível do homem? Uma única inovação: a máquina, dispensado o uso da força física, permitiu à mulher exercer muitas das tarefas do homem e assim adquirir nova confiança em si e nova personalidade. A máquina desmascarou o homem. A decantada superioridade masculina revelou-se ser principalmente uma superioridade muscular.
Hoje, os países onde a mulher é tratada em pé de igualdade com o homem são os países tecnologicamente mais adiantados, onde a fragilidade da mulher não é mais um obstáculo, como os Estados Unidos e a Europa Ocidental. E os países onde a mulher é ainda considerada inferior ao homem são os países tecnologicamente mais atrasados. Mas a máquina chegará lá também...
Felizmente, continuará a haver diferenças entre os dois sexos, e não somente aquela diferença ovacionada certa vez pelo Parlamento francês, mas também diferenças de temperamento, psicologia, comportamento. E com a emancipação da mulher, iniciou-se uma guerra entre ela e o homem, diferenças e na qual cada um procura depreciar o outro. Para ambos, a arma principal é a língua - e o veneno da língua.
Ele a acusa de ser tagarela e superficial: Minha mulher tem um defeito na garganta. De vez em quando precisa parar de falar para respirar. Ela o acusa de ser arrogante e fátuo: Meu marido está mudando de religião; não mais acredita que ele é Deus.
Cada um acusa o outro de infidelidade. Ele: Os padres se consolam de não estarem casados quando ouvem as mulheres se confessarem. Ela: Para a maioria dos homens uma esposa é uma necessidade; mas a esposa de outro homem é um luxo muito apreciado.
E a guerra vai se estendendo, com mais vitórias para a mulher do que para o homem. Como, todavia, as coisas humanas são complexas, as vitórias da mulher têm suas desvantagens. Quando a mulher era submissa ao homem, tinha sobre ele, de certa forma, mais poder do que hoje, pelo jogo do amor e da paixão. Ilustra esse poder o que aconteceu aos três escritores alemães de quem citamos as opiniões desfavoráveis à mulher: Schopenhauer apaixonou-se por uma bonita moça de Veneza, que lhe preferiu a Byron. Nietzsche foi desprezado por sua Dama Escura, Lou Salomé, atrás de quem percorreu a metade do mundo. E Weininger se matou pela mulher que amava. Justificava-se mais uma vez a reflexão espirituosa de Mme. de Ségur: Os homens dizem das mulheres o que querem, e as mulheres fazem dos homens o que querem.
Hoje, o amor perdeu muito de seu sabor e sedução e virou sobretudo sexo. O corpo da mulher, demasiadamente exposto, tornou-se presa fácil e não mais provoca aqueles desesperos amorosos. Os homens continuam a dizer das mulheres o que querem; mas de menos a menos as mulheres conseguem fazer dos homens o que querem. E um dia elas poderão ter saudade da antiga sujeição.
- MANSOUR CHALLITA é escritor, jornalista e presidente da Associação Cultural Internacional Gibran no Rio de Janeiro


