A guerra dos prefeitos
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de dezembro de 1996
Editorial 
O novo prefeito de Londrina, Antônio Belinati, declarou que vai adotar uma economia de guerra desde os primeiros momentos de seu mandato à frente do Executivo municipal. Outros prefeitos terão de fazer a mesma coisa e, em vista da situação em que se encontra a grande maioria dos municípios do Paraná, o exemplo deve ser seguido por todos os que vão iniciar sua jornada no dia 1º de janeiro. Na verdade, o País todo está em guerra há três anos, desde que foi lançado o Real, para vencer a batalha pelo equilíbrio financeiro e orçamentário do Estado brasileiro.
Com o lançamento do plano de estabilização da economia, em fevereiro de 1994, iniciou-se uma verdadeira guerra não apenas contra a inflação, mas contra todo o descalabro econômico brasileiro, do qual uma das causas primárias é o déficit público crônico e descontrolado. O plano exigiu muito da população e dos próprios governos federal, estaduais e municipais. A população vem cumprindo sua cota de sacrifícios, faltando apenas que os três níveis de governo façam a parte que lhes cabe. Muitos estados e um grande número de municípios nada fizeram ou fizeram muito pouco. A União, por sinal, é um dos que fez muito pouco. A hora da verdade, agora, chegou.
União, estados e municípios não têm mais como deixar para depois o ajuste do setor público. Que o desafio não é fácil, nem é preciso repetir. Esta guerra vem sendo travada a cada dia por uma enorme população que recebe baixos salários, mas se vê parcialmente recompensada pelo aumento do poder aquisitivo promovido pela queda vertical da inflação e a quase inacreditável estabilidade dos preços da cesta básica. A distribuição de renda melhorou, alguns milhões de marginalizados puderam ingressar no mercado de consumo - principalmente alimentos e vestuário.
A guerra está longe de terminar. A distribuição de renda tem de ser muito melhor, os salários ainda são os mais baixos do Terceiro Mundo, a produtividade - que está melhorando - precisa melhorar muito mais, seja na indústria, na agricultura ou nos serviços. Isto possibilitará a redução de custos e o incremento dos salários, se o sistema produtivo for desonerado de impostos, taxas e contribuições absurdas e de leis trabalhistas totalmente obsoletas no mundo moderno.
Mas nada conseguiremos se o ajuste do setor público não for feito com seriedade e rapidez. O Legislativo ainda não concluiu as reformas estruturais que permitirão o controle do déficit público, fator maior da escalada inflacionária brasileira. E os Executivos, tanto o federal quanto os estaduais e municipais, ainda têm muito que fazer para pôr a casa em ordem.
Os prefeitos que vão assumir seus cargos em todo o País receberão uma herança pesada e complexa. Em Londrina, os funcionários públicos estão em greve porque muitos ainda não receberam o 13º salário. Em centenas de outros municípios, os salários dos funcionários estão atrasados. Há fornecedores que não recebem há meses. E não há outro modo de enfrentar esta situação a não ser encarando-a, efetivamente, como uma guerra.
A população, como sempre acontece, espera muito dos seus governantes. E mais ainda quando se trata de prefeitos, tão intimamente ligados à vida pessoal de cada um. Mas o povo tem-se mostrado sensível e realista diante dos desafios deste momento. Se houver transparência no trabalho dos novos prefeitos, se for clara a disposição de agir com seriedade, honestidade e critério, o povo saberá entender e participar desta luta.
Que sejam sinceros e verdadeiros os novos prefeitos. Se assim forem, o povo lhes dará o apoio que tanto precisam e sem o qual nada conseguirão fazer.


