De 43 homicídios registrados este ano em Londrina até a última sexta-feira, 16 vítimas eram menores de 21 anos. Outras oito não completaram 24. No total, representam 55% dos assassinatos no município nesses primeiros quatro meses. Pobres, moradores da periferia, sem estudo e a maioria sem família, mal saíram da infância para cair no mundo das drogas e virar números nos registros policiais. Autoridades não escondem: os garotos estão sendo executados


Gilliard, Egas, Gilcemar, Eraldo, José Carlos, Geovani, André, Patrícia, João Ricardo, Pelledi Júnior, Leandro, Reginaldo, Sérgio Henrique, Josiel, Genivaldo e Rodrigo. Estes 16 adolescentes com idades entre 16 e 21 anos, estamparam manchetes, foram notícias em jornais e se transformaram em inquéritos policiais este ano, em Londrina. Dos 16 jovens, com exceção da única menina do grupo, morta a facadas, todos os outros foram assassinados a tiros. As mortes representam 37,2% do total de homicídios cometidos este ano em Londrina. Além deles, mais oito pessoas com idades entre 22 e 24 anos foram mortas por armas de fogo, elevando para 24 o número de jovens executados só este ano. Do total de 43 homicídios registrados até sexta-feira no município, as mortes dos jovens representam 55,8% dos casos.
Com os meninos foram enterrados pesadelos, revolta, dor, indignação, solidão, medo, e também dezenas de sonhos. A Folha procurou algumas famílias dos adolescentes para conhecer um pouco mais da vida que eles deixaram para trás. Nos relatos das mães e irmãos, um perfil comum a todos: a vontade louca de reter o brilho da vida. Perseguidos e alcançados pelos executores no meio do mato, no asfalto, nas margens de córregos, na frente da casa, alguns corpos, como o de Rodrigo, último menino morto, foram encontrados crivados de balas. No local do crime, um brejo, ficou uma cruz de cápsulas deflagradas.
Os homicídios dos meninos e o tráfico de drogas que corre solto na cidade caminham em linhas paralelas. A reportagem apurou que praticamente todos os jovens conheceram a droga bem cedo e se envolveram até o pescoço com traficantes. Quase todos oriundos de famílias humildes, vagando pelas ruas enquanto os pais vão à luta, em muitos outros casos sem pai nem mãe, criados por vizinhos, os meninos entram de cabeça na ‘‘luz’’ que a droga oferece.
A tática para o aliciamento é a mesma em quase todos os casos: oferecer a droga como um ‘‘agrado’’ para estimular o vício e depois passar a cobrar pela oferta. A conta, um tempo depois, passa a ser debitada em ‘‘serviços’’ que os meninos menores de idade passam a fazer para os traficantes. Com mãos ainda muito pequenas para segurar a ‘‘ferramenta’’ (gíria que designa arma de fogo), eles se lançam à aventura de pedir ‘‘um trocado’’ em semáforos, esquinas e portas de restaurantes. Faça chuva ou faça sol, invariavelmente nesses locais existe um menino descabelado, canelas finas, vestido de bermuda e camiseta sujas, quando não descalço, arrastando um chinelo velho.
Quando as esmolas já não rendem o esperado, entram em cena os pequenos furtos, seguidos dos roubos à mão armada em ônibus, em residências, e abordagens direta a pessoas. Cedo ou tarde eles se tornam conhecidos dos policiais. Da lista dos 16 adolescentes assassinados este ano, quase todos foram apreendidos quando eram menores de idade. A Folha apurou que a experiência passada no Centro de Atendimento Integrado ao Menor Infrator (Ciaadi) foram lições válidas. Em cartas que ficaram com os familiares, os adolescentes demonstraram arrependimento e o desejo de recomeçar a vida de outro jeito. Algumas famílias chegaram a mudar de bairro no intuito de livrar os filhos dos traficantes, em vão.
As famílias têm medo de falar sobre os executores dos filhos. Apesar de conhecerem os envolvidos nos crimes, elas não apontam os responsáveis. ‘‘Se eu falo que foi esse ou aquele meus filhos que ficaram vivos podem ser as próximas vítimas’’, disse à Folha uma mãe. Para ela e todas as outras, a Justiça será feita, ‘‘mas não nessa vida’’.

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