A guerra do Kosovo é aqui
Mirian Guaraciaba
As fotos na capa dos principais jornais do mundo mostrando albaneses, velhos e moços, disputando, aos empurrões, um pedaço de pão, estampam a face mais suja e escura da guerra absurda que arrasa a Iugoslávia. Imagens constrangedoras, chocantes, vergonhosas.
As forças aliadas acertam os alvos, bombardeiam serviços básicos da Iugoslávia, são cruéis ao deixar sem destino suas vítimas. Aqueles que os Estados Unidos e a Organização do Tratado do Atlântico Norte quiseram ‘‘proteger’’ com seus mísseis ficaram sem terra, sem comida, sem perspectiva.
Desenhou-se na região um quadro desolador, ameaçando ainda mais a paz na Europa. A paz que se equilibra na corda bamba em todo o mundo, inclusive na América do Sul.
Para os brasileiros, a angustiante verdade iugoslava está mais perto do que se imagina. Infelizmente, não precisamos ir ao outro lado do mundo, nem ver fotos nos jornais ou assistir pela televisão à triste situação dos refugiados do Kosovo.
Em São Paulo, uma das cinco maiores cidades do mundo em número de habitantes, é comum ver desempregados desmaiando de fome na fila em busca de trabalho. Um quadro tão constrangedor quanto o das vítimas do Kosovo. São brasileiros sem trabalho, sem comida, filhos desamparados, e quase todos sem casa para morar.
Na luta pela sobrevivência, 90 mil pessoas amontoam-se todos os meses na porta do Palácio do Trabalhador. As filas começam de madrugada. A maioria passa ali 12, 14 horas em pé, sem comer, à beira do desespero.
Ontem pela manhã, tornou-se inevitável a lembrança do Kosovo quando o presidente da Força Sindical e do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, Paulo Pereira da Silva, anunciou uma medida concreta para minimizar o sofrimento daqueles trabalhadores.
Com a ajuda da Associação Nacional dos Fabricantes dos Veículos Automotores (Anfavea), o sindicato vai dar um pãozinho aos desempregados. Será apenas pão, sem leite, café, ou suco. ‘‘Quem sabe no mês que vem, com o auxílio da Fiesp, conseguiremos o pingado (café com leite)’, justificou o constrangido sindicalista.
Na moderna São Paulo há nada menos que 17,5% de desempregados. Quase um quinto de sua população ativa. Muito maior que a média nacional - entre 7,5 e 8% - e alarmante.
Somado à crise econômica, o índice fica mais preocupante. Se não vivemos uma guerra sangrenta - costumamos garantir que o Brasil está livre delas - a batalha pelo emprego, o salário e a dignidade chega a ser desumana, cruel. E justifica outras guerras, como a da violência.
O altíssimo nível de desemprego explica o empobrecimento do País e o aumento dos casos de homicídios, assaltos, estupros. Índice, aliás, admitido recentemente pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. O presidente insistia em dizer que a situação do emprego não estava tão dramática.
É tão grave que na mesma São Paulo, de avenidas, casarões e edifícios magníficos, carros importados e gente muito rica, um dos restaurantes que oferece o menor preço do prato feito, o ‘pf’, sofreu sensível queda em sua freguesia.
As filas eram costumeiras. A refeição é vendida a R$ 1,00. Seus frequentadores: desempregados, mendigos e meninos e meninas de rua. Os preços não subiram.
- MIRIAN GUARACIABA é jornalista em Brasília

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