A guerra
continua
Aldo Rebelo
Os bombardeios foram suspensos, mas a agressão à Iugoslávia ainda não acabou. A guerra continua por outros meios, seja pela ocupação do território de um país soberano pelas forças da Otan, seja pela permanência do conflito interno que serviu de pretexto para a mais grave quebra de soberania na Europa desde que, há 60 anos, Hitler invadiu a Polônia e detonou a Segunda Guerra Mundial. Agora os desafios são mais sérios e delicados. Cumpre reconstruir um país arrasado e encontrar uma solução geopolítica para acomodar sérvios e albaneses na província de Kosovo.
Segundo a correspondente do jornal francês ‘‘Le Monde’’, Babette Stern, a Iugoslávia regrediu meio século à custa dos bombardeios. Toda a infra-estrutura do país, de refinarias de petróleo a rodovias, de ferrovias a centrais elétricas, de escolas a aeroportos, foi comprometida pelas bombas lançadas durante 79 dias de ataque. Metade dos 12 milhões de iugoslavos ficou sem água e eletricidade. Integrantes do Centro de Estudos Econômicos de Belgrado calculam que a atividade econômica, já em declínio antes da agressão, com um índice de desemprego em torno de 35%, despencou 60% no período.
As forças agressoras têm o dever moral de contribuir para a reconstrução da Iugoslávia. A Otan gastou US$ 7 bilhões na agressão, o que equivale a quase metade de todo o Produto Interno Bruto (PIB) iugoslavo. Por enquanto, os agressores concordam apenas em participar do soerguimento de Kosovo, a província onde se originou o conflito. A razão é que vão implantar ali um ‘‘governo internacional’’, um enclave ultranacional dentro de um país soberano.
A agressão à Iugoslávia foi operada sem o aval da ONU, o que significa uma preocupante violação dos regulamentos internacionais. Tão eficiente quanto a máquina de guerra, a engrenagem de propaganda da Otan simplificou a questão interna de Kosovo dizendo que ali ocorria uma ‘‘limpeza étnica’’ e que era necessário intervir para evitar o genocídio dos habitantes de origem albanesa.
Não é tão simples. Kosovo é uma espécie de santuário histórico dos sérvios. Eles estão lá pelo menos desde o século V, quando esta região dos Bálcãs tornou-se sede da dinastia Nemanjic. Os sérvios perderam a área para os turcos em 1453, recuperaram-na no começo deste século, perderam-na novamente, para o Império Austro-Húngaro, e em seguida para a Alemanha na Segunda Guerra. Kosovo foi definitivamente integrada à Iugoslávia unificada pelo marechal Josep Broz Tito após heróica resistência à invasão nazista. Nessa época, Kosovo já estava sendo ocupada por emigrantes da vizinha Albânia, que se tornaram 80% da população de 2 milhões de habitantes.
A minoria sérvia perdia direitos em sua terra. Anteviu um movimento separatista e, tal como os americanos acabam de fazer com os latinos na Califórnia, proibiu a alfabetização em língua estrangeira e impôs o idioma nacional, o servo-croata. Em 1989, o governo de Belgrado complicou a situação ao suspender a autonomia da província. Uma das fontes do prestígio do presidente Sloboban Milosevic na região foi a sua promessa de que os sérvios, queixosos de discriminação, não seriam humilhados em seu território. Surgiu então o Exército de Libertação de Kosovo e a guerra civil. Era um assunto interno, cuja solução deveria confinar-se à mesa de negociações.
Mas a Otan, que atuou como infantaria dos Estados Unidos, num episódio de submissão que desonra a Europa, decidiu resolver pela força um problema que a força não resolve. A Iugoslávia foi arrasada, Kosovo, ocupado, mas os condicionantes geopolíticos permanecem. É a maior lição que a história pode dar aos agressores.
- ALDO REBELO é deputado federal por São Paulo e líder do PC do B na Câmara

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