A tragédia da greve na UEL, UEM e UNIOESTE, com uma nova querela jurídica, teve uma trégua em seu marasmo. A despeito disso, seu fim não ocorrerá antes de o Governo apresentar uma proposta concreta de reajuste salarial, a não ser que o movimento grevista, para salvar um pouco de moral, sacrifique-se e renuncie à exigência. Está em cartaz um último e longo ato dessa tragédia.
É preciso falar do papel do Estado, pois, apesar de omisso em toda essa história, ele nunca sai de cena e, se quisesse, poderia por fim à tragédia. Mas limita-se, com algum sucesso, a bravatas contra o movimento grevista, e a jogá-lo contra a sociedade. Não é demais lembrar que o STF já emitiu parecer que obriga o Estado a reajustar anualmente os salários de seus servidores. Se informações de fontes do próprio Governo confirmam que seria possível atender a reivindicação, por que, então, não é concedido o reajuste? Há quem diga que é por um capricho pessoal do Príncipe, ou por algum motivo que ninguém sabe, nem ele. Alguns personagens enlouquecem durante a história.
Em relação à Justiça, apesar de ter sido abençoada pela LRF, pode ser afirmado que, por ter os olhos vendados, nunca se sabe de que lado está. O judiciário nem sempre participa da peça, mas quando entra, rouba a cena. A decisão da Magistratura, que determinou o retorno parcial das atividades na UEL, se ampara em direitos constitucionais; entretanto, ao decretar a ‘‘nulidade’’ de uma deliberação do CEPE, violou o também direito constitucional de autonomia universitária. As promotorias de Defesa do Patrimônio Público e de Defesa dos Direitos e Garantias Constitucionais têm sido representadas pelo promotor Bruno Galatti. Esse personagem, a dar crédito ao que foi dito, empolgou-se tanto com a mise-en-scSne que tentou passar por doente no HU.
A sociedade é o personagem mais complexo da história, pois é invisível, apesar de ser composta de indivíduos de carne e osso; está em todo lugar e em parte alguma. Ela é quem paga a conta, então é a maior prejudicada. Mas na tragédia em cena, a sociedade seria representada, principalmente, pelos estudantes e a população que recebe assistência da UEL. Os estudantes universitários dão sentido aos professores e à Universidade, logo têm um papel de suma importância. Na peça em cartaz, eles deveriam atuar apoiando as reivindicações dos grevistas e ir ao Campus exigir aulas. Em particular, os formandos gritaram no palco e foram atendidos em parte. Há ainda os virtuais vestibulandos que também protestaram; no entanto, não foram atendidos, e estão pagando o preço. Já o resto da população, salvo alguns, permanece calada. Com isso, definitivamente, nenhuma instituição isolada pode se arrogar e se apresentar como porta-voz da sociedade.
Na sequência desta tragédia, alguém poderia perguntar: essa história não tem outros integrantes? Em relação à Igreja, com todo o respeito pelas autoridades religiosas, e a cada um dos demais crentes, o caso é complicado. Desde que Deus morreu com o triunfo da ciência, e a Igreja separou-se do Estado, ela não pode fazer quase nada. No máximo acredita que alguma intuição divina resolva o impasse da greve. Quanto à Imprensa, ela faz sua parte, divulga a tragédia e respeita a posição de todos e é natural que esteja defendendo o fim da greve. Contudo, precisa evitar que sua opinião seja transmitida como se fosse a de todos.
Por fim, o movimento grevista tem uma causa absolutamente justa, mas as estratégias argumentativas e de mobilização social, assumidas pelo Comando, têm sido insuficientes. Dito de modo simples, o Comando enrola-se e não modifica sua postura. Seria necessário, há muito tempo: ter acionado ofensivamente sua assessoria jurídica; ter pressionado cada um dos emasculados membros da bancada governista da Assembléia Legislativa; ter viabilizado alternativas diferenciadas de mobilização da sociedade que contribuíssem para se ter negociações verdadeiras e não simples encontros para se tomar cafezinho. É difícil saber se ainda há tempo para tudo isso. O certo é que nenhum servidor em greve gostaria que a figura do Comando, que representa o personagem do movimento grevista, fosse impotente ou inimigo porque, desse modo, seria melhor baixar a cortina e encerrar o espetáculo. Se for assim, acabou!
ANTÔNIO TADEU C. DE BAIRROS é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina (UEL)

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