É lamentável o descaso do governo estadual do Paraná com relação à greve dos servidores estatais das universidades públicas. Sua inércia contribuiu para que esta greve entrasse para a história como a mais longa do Brasil, e quem sabe até, do mundo! Diante do alcance desta posição histórica, nem um pouco invejável, entendemos oportuno fazer algumas reflexões acerca do instituto da greve.
Na iniciativa privada, a greve consiste num instrumento de ‘‘pressão legalizada’’ a serviço dos trabalhadores frente aos empregadores. É uma forma de garantir à parte hipossuficiente da relação jurídica de emprego (trabalhador) mais força para poder reivindicar melhorias em suas condições de trabalho, quando não seja possível obtê-las por prévio acordo. Em linhas gerais, a greve é nada mais nada menos do que o ‘‘direito que os trabalhadores têm, em certas circunstâncias, de causar prejuízo ao empregador’’. E o empregador prejudicado é justamente quem detém o ‘‘poder’’ de fazer cessar os seus próprios prejuízos. Isto porque está em suas mãos o término da greve, pois pode atender às reivindicações dos grevistas ou empenhar-se em negociar e obter concessões, viabilizando o entendimento.
No serviço público, o instituto da greve é bem diferente! Quem detém o ‘‘poder’’ de acabar com a greve, atendendo às reivindicações dos grevistas ou dedicando-se em negociar e obter concessões, é o governo. Mas os prejudicados são os usuários do serviço público, e não o governo. Este é o ponto fundamental de discrime entre a greve na iniciativa privada e no serviço público. Na iniciativa privada, quando o prejudicado não suportar mais a greve, pode empenhar-se em contribuir para o seu término. Já, no serviço público, os prejudicados não têm ‘‘poder’’ para acabar com a greve, mesmo que já há muito não possam suportá-la.
Os usuários de serviços públicos, prejudicados pela greve, são como as vítimas de um sequestro que esperam impacientemente pelo pagamento de seu resgate, para serem postas em liberdade. Se o resgate não for pago, crêem com toda a força d’alma na bondade humana e alimentam a esperança de que os sequestradores as deixarão viver.
Mas o que dizer desta greve das universidades públicas, que já se arrasta por quase quatro meses, em que o governo do Paraná não paga e nem demonstra intenção de pagar o resgate, pois é indiferente para com a educação e consequentemente para com os alunos, as vítimas encarceradas. E diante do descaso do governo, os grevistas se mostram insensíveis e irredutíveis, mantendo os alunos no cativeiro, sem lhes dar nenhuma esperança de vida.
Embora o sequestro seja, juridicamente, ilícito e a greve seja lícita, a vítima do sequestro pode contar em seu favor, na maioria das vezes, com o amor, com a compaixão e com a preocupação do responsável pelo pagamento do seu resgate. Já, nós, alunos e vítimas da greve, nos assustamos com a indiferença do pagador do nosso resgate, que longe de querer nosso bem, parece desejar nos ver atirados aos leões. Só nos resta rezar pela compaixão e pelo bom senso dos grevistas para que, mesmo sem o pagamento do resgate, dêem uma trégua à greve e com isso possamos voltar logo a estudar e a construir os nossos conhecimentos.
Queremos sair desta angústia, queremos continuar nossas vidas, buscar nossos sonhos, mas infelizmente não podemos fazer parte da solução deste impasse gerado pela greve. Devo admitir que somos apenas o objeto, a ‘‘peça-chave’’ utilizada para a efetivação de uma ‘‘chantagem’’ que já pode ser caracterizada de desumana. E o mais triste de tudo é que nossa voz, aprisionada no fundo do quarto escuro da insensatez, parece não encontrar eco nos ouvidos de quem um dia já foi aluno.
Com isso, não estou me colocando contra as reivindicações dos servidores estatais em greve, que acho justas, nem estou cedendo à tática do governo irresponsável de despertar na opinião pública a revolta contra os grevistas pela situação, por ele, não resolvida. Estou apenas defendendo os interesses da minha classe, as vítimas da greve, pois ao contrário do que muitos pensam, também temos interesses, ou melhor, também temos direito de ter interesses e de lutar por eles. Reivindicações e interesses não são apanágio apenas de servidores estatais em greve!
E espero que o bom senso e a solidariedade para com os alunos prosperem, caso contrário a palavra grevista, que por enquanto apenas rima com egoísta e individualista, vai adquirir também seus conteúdos de significação.
JULIANO DE BRITO NEITZKE é formando do curso de Direito da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e representante discente no Colegiado

mockup