A grandeza dos detalhes na vida diária
Em nossos dias há muita preocupação com o trabalho. Essa preocupação é proveniente de vários motivos: é impensável sobreviver sem um salário ou fonte de recursos em nossa civilização; é, às vezes, muito difícil encontrar trabalho remunerado; há, também, muitas diferenças nos ganhos, dependendo do tipo de atividade desempenhada.
O que parece ter sido esquecido é que o trabalho é fundamental para o ser humano. O que é impensável é a vida sem nenhuma atividade produtiva. O homem, diferentemente dos outros seres vivos, precisa ter algum trabalho e aqueles que o recusam ou que são forçados a se retirar da vida ativa sentem-se muito incompletos. E por trabalho, entende-se qualquer atividade produtiva, desde varrer o chão em casa até pensar em novas soluções para os problemas nacionais.
No dia 2 de outubro de 1928, Josemaria Escrivá, um jovem sacerdote, depois de vários vislumbres durante sua vida, viu o que Deus queria para a sociedade do século 20. Parece que as pessoas se haviam esquecido de que, além da fundamental importância do trabalho como fonte de sustento, a atividade produtiva faz parte do ser humano e pode ser uma forma de glorificar a Deus. Assim fundou o Opus Dei, a Obra de Deus.
O próprio bem-aventurado Josemaria diz que uma maneira de entender o Opus Dei é pensar na vida dos primeiros cristãos. Eram pessoas comuns, trabalhadores, pessoas de todas as classes, que em nada se diferenciavam dos outros cidadãos. Apenas uma coisa os distinguia: viviam literalmente os ensinamentos de Cristo, e, assim, não tinham o mesmo comportamento da sociedade da época.
O Opus Dei nasceu dessa consciência de que, para sermos cristãos autênticos na vida comum, é preciso valorizar o trabalho. Qualquer atividade humana pode ser realizada de modo que possa servir como louvor a Deus. Essa é a novidade que Monsenhor Escrivá nos traz.
Há várias maneiras de se levar a cabo uma atividade podemos simplesmente cumprir as tarefas diárias porque é através delas que teremos como pagar as contas no fim do mês resignação; podemos cumpri-las de uma forma perfeita porque faz parte de nosso caráter vaidade pessoal; podemos fazer de conta que as estamos cumprindo, mas na verdade marretamos o serviço desleixo; podemos cumpri-las e ganhar algo mais por especiais favores desonestidade; ou podemos simplesmente cumpri-las com capricho porque se podem transformar em oração santificação do trabalho.
Eis o ensinamento que o bem-aventurado Josemaria Escrivá deixou para o homem de hoje: através do cumprimento de nossas obrigações cotidianas, feitas com a maior perfeição possível em louvor a Deus, estaremos plenamente vivendo a finalidade para a qual fomos criados. Um de seus exemplos mais gráficos é o trabalho paciente, custoso e detalhado dos pedreiros que construíram as torres da Catedral de Burgos.
Aquela maravilhosa renda feita de pedra não pode ser contemplada por quem está embaixo, por aqueles que moram na cidade, mas foi laboriosamente trabalhada, mesmo assim, só para dar glória a Deus. Monsenhor Escrivá dizia que assim deve ser o trabalho de cada um acabar as tarefas com perfeição, com beleza e capricho, dar a última pincelada, o último retoque, mesmo sabendo que talvez muitos não verão esses detalhes. Ao oferecer a Deus essas delicadezas, nosso trabalho será a maneira de nos aproximarmos dEle.
Nesta época em que recordamos seu falecimento em 26 de junho de 1975, queremos avaliar a imensa contribuição que ele trouxe para a sociedade atual, tão necessitada de valores éticos e humanos no trabalho. Somente podemos agradecer a Deus que nos tenha dado esse filho tão fiel, que nos recordou a importância das coisas pequenas feitas com amor a Deus e ao próximo.
- SONIA MARIA LAZZARINI CYRINO, doutora em Linguística, é professora universitária em Londrina





