A grandeza da Nação - Gaudêncio Torquato
A grandeza da Nação
Gaudêncio Torquato
O que faz a grandeza de uma nação? O historiador Edward Gibbon, em Declínio e Queda do Império Romano, sintetiza respostas, quando aponta a tríade de fatores responsáveis pelo progresso da sociedade: a imaginação dos pensadores; os benefícios das leis, da política, do comércio, das manufaturas, das artes e das ciências; e a capacidade operativa de homens comuns, famílias, e cidades dedicadas aos ofícios mecânicos, ao cultivo da terra, ao uso do fogo e dos metais, enfim, à prática dos mais variados e utilitários serviços cotidianos.
Não se trata, aqui, de teorizar sobre a filosofia do desenvolvimento. A questão colocada objetiva centrar a análise sobre a realidade brasileira: quais os ingredientes para se fazer um grande país? Traduzindo Gibbon, tem-se a resposta: um grande plano, boa administração e homens empreendedores. Kubitschek tinha um Plano de Metas, que se propunha dar ao País um salto de 50 anos em cinco anos. Plantou as bases da indústria automobilística, fez Brasília e saiu com a imagem de realizador, afável, risonho, boêmio e querido.
O ciclo dos militares abriu o caminho das telecomunicações, das estradas e da energia. Castello Branco, o primeiro, foi execrado no início, conservando, hoje, a imagem de preocupado com a legalidade institucional. Médici, sisudo e duro, saiu com a cara de esportista-torcedor do Grêmio. Geisel, desenvolvimentista, pavimentou a via democrática. Figueiredo tinha perfil de esquentado. Sarney fez o Plano Cruzado para controlar a inflação, que então superava a casa dos 20% ao mês. Congelou preços e o PMDB ganhou 22 dos 23 governos estaduais. Depois, patrocinou os fracassados planos Bresser e Verão. Saiu com a imagem no fundo do poço. Collor amedrontou o povo com o confisco, e depois abriu o país para a inserção do capital internacional. Saiu com a imagem abalada por escândalos.
Fernando Henrique, do primeiro mandato, foi o artífice da estabilidade da moeda. Ganhou um segundo mandato, e agora, com seu Plano Plurianual de Obras e reformas constitucionais, algumas feitas e outras em andamento, é impopular, porque não consegue dar empregos, enquanto a insegurança e a violência assumem proporções absurdas. Dentre eles, qual o paradigma do governante ideal? Façam suas escolhas.
Portanto, planos não têm faltado ao País. Mas planos nem sempre conseguem alavancar o progresso. Fernando Henrique é o mais preparado dos presidentes, mas caiu na ira do povo e seu plano parece quimera.
Nas administrações estaduais, sobram poucos exemplos de qualidade. Tasso Jereissatti, no Ceará, exibe modernidade e, no Maranhão, Roseana Sarney, está se saindo melhor que a encomenda: sua estrutura de administração, por meio de gerentes de projetos, é considerada avançada e exemplar. Covas trabalha bem com as contas, mas é um desastre na questão da segurança pública e na política de atendimento ao menor. Garotinho promete, mas fala demais e quer avançar o sinal.
Nos municípios, alguns poucos prefeitos podem ser considerados criativos. Rafael Greca, quando prefeito de Curitiba, era um ícone de inovação e criatividade. Hoje, sofre com as denúncias de favorecimento no Ministério dos Esportes e Turismo.
Na administração privada, há exemplos de grandes, médios e pequenos empreendedores desenhando o mapa de progresso do País. Talvez aí esteja a verdadeira fonte do crescimento nacional. Para dar apenas dois exemplos de visão de luta, coragem e pioneirismo. Ariosto Riva, uma lenda na colonização da Amazônia Ocidental, plantando uma cidade Alta Floresta e um pólo de desenvolvimento na entrada na floresta amazônica, foi um herói. João Claudino, natural de Luis Gomes (RN), filho do venerando Joca Claudino, com seu irmão Valdecir, construiu um império que se espalha, a partir do Piauí, pelo Nordeste Oriental (Pará, Maranhão), empregando gente no comércio e nos serviços e espalhando riqueza pela imensidão do interior. Riva pertence à plêiade dos pioneiros. João Claudino é exemplo vivo de tenacidade e humildade (humus, da terra), essa extraordinária virtude do homem que sabe não ser Deus, mas que é a virtude dos santos.
Os nossos homens públicos precisam se inspirar nos heróis do cotidiano, como Ariosto e João, que estão botando a mão na massa, fazendo o Brasil real e construindo, isso mesmo, a grandeza da Nação.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e da USP e consultor político. E-mail:[email protected]





