Gaudêncio Torquato
A grande
travessia
do deserto
A política é um cenário de incógnitas. Quanto mais se procura desvendá-lo, mais difuso se torna. Não se analisa política, sem se debruçar sobre o cenário social. Os sistemas se entrelaçam como se fosse uma teia imbricada. Mexer com os fios de um é puxar os fios do outro. Com esse entendimento, é possível um ligeiro traçado sobre as nossas perspectivas políticas. Os movimentos sociais indicam que não é de todo arriscado apostarmos numa reforma política em profundidade, a partir de 2.002. A hipótese está amparada em alguns indícios fortes: o arrefecimento da macropolítica e consequente tendência da distritalização; a crescente organicidade social; o aumento da densidade ideológica dos partidos e o maior grau de participação política da sociedade.
As eleições de 94 e 96 mostraram que cresceu, no país, o voto no valor da proximidade. Ou seja, o eleitor votou preferencialmente em candidatos que representavam os anseios mais próximos e diretos da comunidade política: os problemas dos bairros e da região; as questões de saúde, educação, transportes, habitação, segurança. A macropolítica - o discurso abrangente e desfocado do eleitor mais próximo -tem dado lugar à micropolítica, que representa melhor o colchão social do eleitorado. Esse fenômeno liga-se à outra tendência que vem se espraiando por todas as regiões do mundo, e cuja origem está fincada no sistema político norte-americano. Trata-se da organicidade social.
Vimos observando, nos últimos anos, uma forte onda de organização social. A democracia atomizada do princípio do século cede lugar à democracia dos grupos representativos. Os movimentos ecológicos, étnicos, de minorias, energizam o discurso social, gerando bolhas que chegam até as margens da sociedade, impregnando-a com elementos de participação, solidariedade, civismo, consciência crítica, engajamento. O poder tradicional do pater-familiae, dos clãs, dos donos dos currais, passa, de maneira lenta, porém, gradual, para o universo associativo, povoado por sindicatos, associações, federações, clubes de mães, grupos de bairros, movimentos de categorias profissionais.
Ao lado desse fenômeno, observam-se outros, de igual importância: o arrefecimento geral das oposições clássicas e o declínio geral dos partidos. Depois do Muro de Berlim, as oposições marcaram um encontro no paredão dos centros comunitários, amalgamando-se. Perderam muito de sua nitidez ideológica. As que sobraram permanecem isoladas e pequenas à procura de palanques de visibilidade. Os partidos, igualmente, perderam substância, tornando-se massa de manobra e porto de entrada e saída de marinheiros pouco afeitos à grandes temporadas no mar. Gostam de atracar nas cidades litorâneas.
Com receio de perderem mais poder para as entidades intermediárias, que começam a encher cadeiras no Parlamento, com representantes pouco afeitos à política partidária, os partidos políticos iniciam um movimento em busca de doutrina e ideologia. E da atual geléia partidária, pode-se extrair um quadro que, a partir de 2.002, teria uma composição à base das seguintes densidades e grupamentos sociais: um imenso pólo de centro-esquerda, formado por classes médias, formadores de opinião, professores, profissionais liberais, pequenos e médios empresários-uma espécie de colônia de abrigo para o PSDB, parte do PMDB, parte do PDT e até parcelas do PSB e PT; um pólo de centro-direita, onde se agruparão os grandes grupos tradicionais da política, os feudos tradicionais e grupos conservadores moderados- a casa grande do PFL, PPB e adjacências; um pequeno espaço de extrema esquerda, onde se encastelarão radicais; e um menor bastião, de extrema direita, para sediar saudosistas da ditadura, grandes proprietários rurais e fanáticos da religião e das forças armadas.
Depois da travessia do deserto, pisaremos em terra arejada, com partidos fortes e uma comunidade política mais participativa.
Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP

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