A grande conspiração
Caiu a ficha. O País está de um lado e o governo, de outro. A explicação do presidente da República para a crise de energia, que precipitará o resultado do pleito eleitoral de 2002, só pode ser mesmo entendida como ode ao cinismo, à falta de vergonha, à irresponsabilidade, à insensibilidade; em suma, à ignorância, que é a coisa menos provável em uma pessoa de alta cultura e preparo como é o sociólogo Fernando Henrique.
FHC expressar que foi pego de surpresa com a perspectiva do apagão equivale a dizer que, em mais de seis anos, ele não conseguiu fazer a lição de casa. É ignorar os problemas nacionais, não conhecer o ofício para o qual foi eleito. Diz o ditado: Há quatro espécies de homens. O que sabe e não sabe que sabe é tolo, evita-o; o que não sabe e sabe é simples, ensina-o; o que sabe e não sabe que sabe ele dorme. O que sabe e que sabe que sabe é sábio, segue-o. Fernando Henrique é tolo, simples, dorminhoco ou sábio?
E por quê tanta ignorância? Porque o governo está descolado do Brasil real, distante das aflições do cotidiano do povo. Porque o governo só pensa naquilo: a moeda, o compromisso com o FMI, o arrocho no bolso do contribuinte. O manto costurado pela equipe econômica para cobrir a gestão monetarista tinha mesmo de deixar de fora largos espaços da infra-estrutura econômica, imensos guetos marginais, populações marginalizadas, um substrato miserável que insere o País nos primeiros lugares do campeonato mundial de desigualdades. Há um Brasil virtual, de privatizações, grandes negócios, bilhões que entram e saem como nuvens voláteis sobre nossas cabeças, que é uma complexa armação ficcional. Não tem cara, nem cheiro, nem cor. O povo não vê a cor da fortuna, não sente o gosto do progresso, não consegue tocar o solo pátrio.
O Brasil real é o das ruas congestionadas, da violência que mata, anualmente, 45 mil brasileiros, é o universo do medo e da insegurança crescente. Não é seguramente a projeção dos ambientes tecnocráticos do Planalto Central. É o lugar cada vez mais curto do trabalho formal. No país das planícies devastadas, multidões laboriosas comprimem-se nos meios de transporte, nas filas dos hospitais, na porta das fábricas à procura de emprego. Nele, uma classe média se aflige diante da diminuição do poder de compra.
A Nação real é a que se vê surpreendida com o surto de doenças do princípio do século. Sob suas estruturas operativas, muitas corrompidas, desenvolvem-se serviços que o tão propalado projeto de modernização privatização não conseguiu tornar eficientes. Nesse universo virtual, a decência, a moral, a dignidade são valores frequentes dos discursos governamentais. É claro que ele não tem nada a ver com as negociatas imorais que devastam o patrimônio público, juntando nos sujos porões da administração pública políticos inescrupulosos, burocratas corrompidos e empresários desonestos.
Há um apagão no horizonte, que poderá nos trazer mais que escuridão: ondas gigantescas de violência, serviços públicos paralisados, congestionamentos, recessão, desemprego, aumento significativo do Produto Bruto da Infelicidade Nacional (PBIN). E por quê nada disso foi previsto? Porque o governo cuidava do Brasil virtual, do país das maravilhas, do leilão da especulação, das jogadas financeiras, das tramas do programa de privatização, das articulações políticas. Desvenda-se o x da questão: o leit-motiv da equipe tucana de comando, em todo esse tempo, foi e continua a ser o projeto sucessão de Fernando Henrique. É oportuno recordar. O ministro Sérgio Motta, que morreu, desenhou um projeto hegemônico de poder para os tucanos, com duração de 20 anos.
Pois bem: tucanos de bicos poderosos têm interesse em resgatar esse empreendimento. Na mais escondida das moitas, usam seu canto mavioso para viabilizá-lo. Trata-se de uma engenharia política que abriga a idéia de eleger o próximo presidente, governadores de Estados importantes e as maiores bancadas parlamentares.
A tática será a de promover coligações com todos os partidos e arrumar formas e recursos para assegurar a eficácia do projeto, que passa pela sustentação da mais poderosa campanha eleitoral do ciclo tucano. Por isso, acompanha-se com muita curiosidade o desenvolvimento das articulações intestinas dos tucanos, aí circunscritos interesses e pressões em torno do programa de privatizações, principalmente na área das teles.
Desconfia-se de que algo mais que o azul povoa o céu de brigadeiro. Dá para perceber que o Brasil virtual, de plumagem essencialmente tucana, promove uma grande conspiração contra o Brasil real. Trata-se da conspiração da falta de planejamento, da ausência de prioridades, do foco monetarista, da retórica ficcional.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político. E-mail:[email protected]





