A maior parte do saldo positivo da viagem que o presidente Fernando Henrique fez agora à Europa deve ser apenas retórica. FHC ofereceu possibilidades de investimentos no Brasil a autoridades e empresários britânicos e italianos, avistando-se ainda com o papa João Paulo II, por trinta minutos, a sós.
De concreto, só alguns acordos com a Itália. Em Londres, o presidente esteve com o primeiro ministro Major e com o líder da oposição, Anthony Blair. Com o papa, a conversa foi reservada. Foram esses os fatos.
Já se disse que, jornalisticamente, os fatos são sagrados e as interpretações, livres. Será isso mesmo? Há controvérsias. Clarence Barron, publisher do ‘‘Wall Stree Jornal’’ no começo do século, fez, a tal respeito, uma advertência à jornalista e futura espiã americana Mary Bancroft: ‘‘Lembre-se, menina: as fatos não são a verdade’’. O que ele quis dizer é que, com frequência, a verdade verdadeira está escondida sob a aparência dos fatos.
Pois FHC começou a viagem reclamando contra as exigências dos Estados Unidos - de abertura ainda maior do comércio brasileiro ao exterior - e até disse que essa questão ‘‘agora, era briga de gente grande’’. Ao chegar à Itália, porém, suas queixas foram contra o comércio europeu - menos poderoso politicamente do que o dos EUA - mas também fechado à exportação agrícola do Brasil.
Como se vê, embora cumprindo à risca as determinações da nova ordem econômica, imposta pelos países ricos, o Brasil não deixa de ter dificuldades no comércio externo e ainda precisa aturar cobranças impertinentes dos grupos de olho na Vale do Rio Doce ou no setor de energia elétrica e das telecomunicações nacionais.
São justas as queixas de FHC, sobre a falta de reciprocidade internacional à nossa abertura ao neoliberalismo. Durante o penoso processo de submissão do País às exigências estrangeiras, não faltaram alertas ao governo, que, no entanto, sequer as considerou.
Nunca é tarde para mudar e se espera que FHC aprenda a lição de seus reveses no exterior, tratando, a partir de agora, dos casos da Vale, das telecomunicações etc. em função dos reais interesses do País.
Apesar do clima de tranquilidade com que acabou a viagem e mesmo encoberto pela declaração do ministro do Exterior - que chocou Portugal - ficou no ar europeu um enigma a ser decifrado: quem é o adversário da ‘‘briga de gente grande’’ que o Brasil enfrenta? Os EUA ou o G-7? O anúncio extemporâneo desse fato seria só uma bravata? E, antes, os defensores do País, nesses casos, eram anões políticos? Ou todos eram de estatura política normal e só FHC é o gigante apto a defender os interesses brasileiros? Dúvidas não faltam na bagagem de FHC. Sorte dele que esse artigo não paga imposto na alfândega.

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