A grande ameaça das drogas - André Stumpf
A grande ameaça das drogas
André Stumpf
O adjetivo narcotráfico é relativamente recente no vocabulário do brasileiro. No início dos anos 80, quando a cocaína colombiana começou a dominar o mercado norte-americano, apareceu a expressão. Surgiu o termo narcotraficante, que no original é uma palavra espanhola. Foi incorporada pelo idioma português com todos os seus significados.
A origem do problema está na facilidade com que os colombianos produzem a droga e a voracidade que os norte-americanos a consomem. Nos Estados Unidos, não há repressão ao consumo. A política oficial é reprimir na ponta de linha. Destruir os laboratórios que refinam o material e o preparam para entrega ao cliente.
Bolívia e Peru são grandes produtores de coca. Entregam o produto aos colombianos, que fazem o comércio. A principal ação da Drug and Enforcement Agency (DEA), a agência especializada em reprimir a cocaína na América do Sul, ocorre, naturalmente, na Colômbia. Mas ocorrem operações fortes na Bolívia, no Peru e no Brasil. A questão do consumo de droga é uma decisão pessoal. Normalmente, mata o indivíduo. Quem quiser se expor, que o faça.
Mas o subproduto das drogas, do narcotráfico, é político. Os narcotraficantes administram enormes fortunas. Dinheiro inimaginável. Recentemente, foi abortada pelos serviços de informações de países da Europa a compra de um submarino convencional russo por narcotraficantes. A máquina iria transportar cocaína para portos selecionados na Costa Oeste do Estados Unidos dentro da cronologia de entregas elaborada pelo cartel. Há vários exemplos de grupos extremamente bem armados que dispõem de mísseis, carros de combate e aviões moderníssimos.
O Brasil acordou tarde para a realidade. O assunto droga não pertence apenas às páginas de polícia dos jornais. É um tema que contamina a sociedade como um todo. Alguns presidentes latino-americanos perderam seus cargos sob acusação de estarem envolvidos no tráfico. Em Cuba, o general que comandou os Exércitos na brilhante campanha de Angola contra as tropas da África do Sul retornou para Havana e foi preso. Acusado, confessou seu envolvimento com o tráfico. Terminou no paredón.
Os grupos que operam no tráfico têm contatos e extensa capilaridade. São capazes de promover benesses e favores em vários cantos e recantos de um governo. E possuem recursos suficientes para corromper desde o guarda da esquina até o mais elevado funcionário público. Não se trata, apenas, de uma brincadeira de meia dúzia de jovens à procura de um barato.
Criar um ministério para controlar a Polícia Federal pode ou não ser boa idéia. Essa polícia deve permanecer sob controle civil. É uma regra da democracia. É assim nos principais países do mundo. Não deve ser militarizada. Precisa, no entanto, de instrumentos e eficiência.
A luta contra o tráfico é cara, permanente e incessante. Na Colômbia, esse cenário colocou o país em situação de guerra civil. Cientistas políticos são unânimes em afirmar que o narcotráfico é, hoje, a mais efetiva ameaça às democracias no continente. Mas a idéia de criar um órgão no estilo do antigo Ministério do Interior ainda é cogitação. Nem planos há. Só lobby.
- ANDRÉ STUMPF é jornalista em Brasília





