A gloriosa farsa
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 02 de maio de 1997
Maria Lucia Victor Barbosa 
Creio que seria extremamente tediosa para os leitores a leitura de um artigo com tons de sala de aula, no qual se explicasse longamente, e com requintes acadêmicos, o conceito de democracia, aquele tipo de governo do povo ou da maioria baseado na igualdade, como disseram antigos filósofos gregos.
Em todo o caso, diante do que vem se passando no país, seria bom que pelo menos se pudesse esboçar uma reflexão em torno do exercício da democracia, que ao que tudo indica, entre nós é frequentemente confundido com baderna.
Ao mesmo tempo, no Brasil costuma-se confundir democracia com eleição. Mas se votar é importante, o voto não constitui necessariamente um precioso instrumento democrático, um abre-te-sésamo de mudanças estruturais, sendo mais um dever - bem poderia não ser obrigatório - do que um direito do cidadão. Portanto, não se pode confundir uma coisa com outra, mesmo porque muitos déspotas ou demagogos incompetentes são eleitos livremente.
Na verdade, a democracia pressupõe, como um dos seus aspectos essenciais, a igualdade de oportunidades, sendo alcançada só depois que as necessidades básicas de um povo são atendidas. Mas em nosso país, infelizmente, a democracia costuma ser apenas retórica de demagogos e populistas, mais interessados em ganhar eleições do que efetivamente em exercê-la. E, num contesto sócio-político como o nosso onde a cidadania ainda não se definiu por completo, costuma-se confundir impunidade com direitos humanos, e licenciosidade com liberdade, como se isso fizesse parte de atitudes democráticas.
Isso é visível nesse momento quando se presencia reações ideológicas diante da venda da Vale do Rio Doce. Em nome da liberdade de expressão e de um nacionalismo ultrapassado, engalfinhando-se diante da Bolsa de Valores manifestantes e policiais, e a imagem transmitida ao mundo pela televisão deve divertir os estrangeiros pelos aspectos de selvageria e atraso.
Ao mesmo tempo, são mobilizadas por certas lideranças intituladas de oposição ou de esquerda, cujo objetivo único é o poder, pequenas multidões que na mídia aparecem como muito grandes, esquecendo-se todos de que somos um país de quase cento e sessenta milhões de pessoas.
Essas multidões que desfilam sob o tremular de bandeiras vermelhas, e sob o olhar atento e feliz de Vicentinho e de outras conhecidas figuras, dividem-se em vários blocos. Tem o inevitável bloco dos sindicalistas da CUT, que já não conseguem fazer greves e partem para outros movimentos urbanos. O bloco dos sem-terra de verdade, que desfilam com a mesma fantasia dos com-pouca-terra e dos doidos-por-terra-para-vender. O animado bloco dos desempregados que vão junto dos que pedem reforma agrária. O esfuziante bloco dos que anseiam pela volta da inflação, e dos que simplesmente adoram reclamar por reclamar. E fechando o desfile, o pequeno bloco que não deseja a privatização da Vale, apesar de não saber bem porque.
Entre tantos manifestantes, inevitavelmente se incluem jovens de cara pintada, que já fazem parte do folclore nacional. São na maior parte os tangidos pelo PC do B, e acorrem com prazer a esse tipo de carnaval cívico, berrando slogans que não compreendem. É possível que essa juventude pintada de verde e amarelo desconheça o grande líder que inspira sua brincadeira pelas ruas. Pergunte-se a eles quem é João Amazonas, de quem Paulo Francis dizia estar in love com a Idade Média, e será raro que algum dos adolescentes acerte no teste.
Para além do alarido das ruas, existem também graves figuras da nação que exercem o direito democrático de se opor às privatizações. Entre elas estão juízes e bispos, e as leis e a religião são postas de lado em nome da ideologia.
Ao fundo de tudo, ressoa como o grito de algum dinossauro perdido em florestas imemoriais, a ordem de resistir de Leonel Brizola. Mas por que será, é lícito perguntar, que eles querem resistir ao progresso e à prosperidade?
Assistindo a esses fatos deprimentes, recordo o que li em O livro dos insultos do notável jornalista norte-americano H.L. Mencken, tantas vezes por mim já citados neste Espaço Aberto. Quem sabe o seguinte parágrafo possa ajudar a compreender certas atitudes dos democratas do nosso país.
A democracia parece sempre a ponto de matar aquilo que teoricamente ama. Todos os seus axiomas se resolvem em trovejantes paradoxos, muito reduzidos a contradições flagrantes em seus termos. Dizem eles: O povo é competente para nos guiar - desde que possamos policiá-lo rigorosamente. Não são os homens que nos governam, mas as leis - mas são homens sentados em banquinhos que, no fim das contas, decidem o que a lei é ou que deve ser. A função mais alta do cidadão é servir ao Estado - mas a primeira constatação que lhe ocorre, quando tenta cumprir esta função, é a de sua desonra e falta de habilidade. Esta constatação costuma ter suas razões? Então a farsa fica apenas ainda mais gloriosa.


