A globalização do narcotráfico
Róger Rumrrill
Um quarto de século depois do início da guerra contra a cocaína, os países andinos produtores de coca – Colômbia, Bolívia e Peru – continuam com suas relações bilaterais com os Estados Unidos mais envenenadas e narcotizadas que nunca. Dos três, a Colômbia tem o cenário mais complicado, uma espécie de nó que muitos quiseram desatar através de uma intervenção armada. Estes falcões que querem a guerra ou soluções mais radicais são os que criticam as conversações do presidente Andrés Pastrana com a guerrilha, especialmente com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).
O certo é que a Colômbia poderia se tornar o bode expiatório da impotência da administração de Bill Clinton de não poder conter o consumo de drogas entre a juventude americana e também de um disputado espaço eleitoral entre democratas e republicanos. A tensa e dramática situação colombiana atua em favor dos duros, dos falcões norte-americanos como o senador Jesse Helms. De um lado está a guerrilha, tipo de dinossauro marxista-leninista que não só não se extingue como a cada dia parece mais robusto graças aos recursos do narcotráfico e à corrupção do aparato estatal.
Por outro lado, a Colômbia segue sendo o maior exportador de drogas para o mercado americano. Segundo os especialistas independentes, cultivam-se neste país não menos que 150 mil hectares, o que coloca a Colômbia como o primeiro produtor mundial de folha de coca. O pior é que as estratégias de erradicação dos cultivos de coca, papoula e maconha, de acordo com os mais destacados especialistas colombianos no assunto, Ricardo Vargas Meza e Alfredo Molano, não fazem senão estender mais os cultivos ilícitos e pôr lenha na fogueira do conflito armado nessa castigada nação.
A Bolívia tem a sorte de não ter um conflito armado como na Colômbia. Mas tem um conflito social com múltiplos atores e protagonistas. Entre estes estão os camponeses que produzem a coca, sindicalizados e organizados em cinco federações. Para a Bolívia, o calcanhar-de-aquiles de sua política antidrogas é o desenvolvimento alternativo. A estratégia da Luta Contra o Narcotráfico pela Dignidade (1998-2002) posta em execução pelo governo do general Hugo Banzer enfrenta um obstáculo, por enquanto, impossível de remover: o modelo macroeconômico que torna inviável o desenvolvimento alternativo.
Entre 1988 e 1998, a Bolívia investiu cerca de US$ 260 milhões em projetos de desenvolvimento alternativo aos cultivos de coca. O balanço desse processo revela falta de mercados para os produtos alternativos, mínima ou nenhuma participação dos produtores no debate das políticas, ausência de estratégias integrais, políticas macroeconômicas que excluem os produtores do mercado nacional, velhos padrões produtivos, entre outros problemas.
Resultados: sendo a Bolívia o país que mais investiu em desenvolvimento alternativo, os camponeses do Chapare continuam semeando coca para o narcotráfico. Por uma simples razão: seus produtos alternativos não podem competir no mercado local, e muito menos no internacional, com a soja, o milho, o leite e o arroz importados.
No Peru, até pouco tempo o maior produtor mundial de folha de coca, desde 1995 registra-se uma queda espetacular das superfícies do cultivo. Segundo cifras oficiais, em 1995 a superfície de coca no Peru era de 115.300 hectares. Em 1998, havia caído para 51 mil hectares. Os preços da folha, coincidentemente, entraram em colapso. Tanto o governo peruano de Alberto Fujimori como a administração Clinton qualificaram esta redução como o maior êxito mundial em matéria de luta antidrogas, por uma eficiente e eficaz estratégia de interdição e repressão das máfias e a execução bem-sucedida dos programas de desenvolvimento alternativo.
Para nós, este foi um triunfo virtual. Porque a redução não se deve aos argumentos brandidos por Fujimori e Clinton e sim a duas causas básicas: desde 1990 a Colômbia começou a se autoabastecer de matéria-prima e desbancou a coca peruana do mercado, além disso, o mercado mundial havia acumulado um superestoque de cocaína de aproximadamente 1.700 toneladas. Uma prova disto é que os preços da folha (que caíram de US$ 50 o pacote de 11,5 quilos em 1992 para US$ 5 em 1995) começaram a subir rapidamente. Em meados de outubro, no Valle del Río Apurímac, o preço da folha de coca estava cotado a US$ 3 o quilo, enquanto o quilo do café era vendido a US$ 1 e o do arroz a US$ 0,20.
Enquanto os preços da coca sobem e os dos produtos alternativos caem, está se desenhando um novo mapa das drogas no Peru: cartelizam-se as antigas firmas, agora vinculadas aos poderosos cartéis mexicanos; mais de 70% da droga agora são refinados em Lima e Callao e exportados pela via marítima.
Mais de um quarto de século de guerra contra as drogas, com enormes custos econômicos, sociais, culturais e humanos, cujo objetivo era frear a oferta e diminuir a demanda, resultaram em um fiasco. No final das contas, paradoxalmente, o maior êxito da globalização da economia é a globalização das drogas. (IPS)
- RÓGER RUMRRILL, da Inter Press, é escritor e jornalista especializado na realidade amazônica e em particular em narcotráfico

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