Há duas forças extremamente importantes que estão modelando o mundo atual: a revolução na informação e na biotecnologia e o crescente impulso da globalização. As duas forças têm um imenso potencial para o bem. Entretanto, também representam riscos. As duas podem ajudar a transformar as vidas de milhões de pessoas. Mas não o farão pelo simples fato de que desejamos que isso ocorra. Um mundo no qual a distância entre ricos e pobres continua aumentando e no qual apenas uns poucos privilegiados têm acesso aos frutos da revolução tecnológica, se tornará cada vez mais inseguro.
No mundo moderno, as bactérias e os vírus viajam quase tão rápido quanto o dinheiro. Não existem santuários sanitários. E não são apenas as doenças infecciosas as que se propagam com a globalização. As mudanças no estilo de vida e na dieta podem estimular um incremento de doenças cardíacas, diabetes e câncer. Mais que tudo, o fumo está açoitando o planeta à medida que é entrecruzado pelas forças do mercado. Apenas poucas semanas depois de as velhas economias socialistas da Europa e da Ásia abrirem-se aos bens e capitais ocidentais, camelos e cowboys começaram a aparecer nas paredes dos edifícios e outdoors. Se o aumento do número de fumantes continuar sem restrições, o número de mortes relacionadas ao fumo quase triplicará e passará dos atuais quatro milhões por ano para dez milhões anuais nos próximos 30 anos.
As diferenças na situação sanitária ilustram dramaticamente a distância entre ricos e pobres no mundo atual. Os pobres - aqueles que vivem com menos de US$ 2 por dia - sofrem desproporcionalmente devido aos estragos provocados pelas enfermidades contagiosas. Em 1998, as doenças transmissíveis foram responsáveis por cerca de 34% da carga total da enfermidade no mundo, mas aproximadamente o dobro - 64% - ocorreram em países com as menores rendas per capita, onde vive um quinto da população global.
Apesar do que possam dizer os críticos, não é inevitável que a globalização conduza à injustiça. O que faz falta é uma forte liderança política que impulsione os governos, a sociedade civil e o setor privado no sentido de trabalhar em conjunto. Devemos nos comprometer com estratégias que permitam às extraordinárias forças da globalização trabalharem para o bem de todos, e não só de uns poucos escolhidos. Mas isso não significa realizar atos isolados de caridade, como ocasionais doações empresariais, pois necessitamos de um programa estratégico de longo prazo que concretize as experiências de programas de desenvolvimento efetivo e, ao mesmo tempo, coloque à frente os interesses populares. Os países pobres não podem reduzir o peso das doenças associadas à pobreza se apenas estão em condições de gastar anualmente com saúde entre US$ 5 e US$ 10 por pessoa.
Para alcançar os resultados em matéria de saúde que mais importam às pessoas pobres deve-se aumentar sua possibilidade de acesso ao cuidado essencial com a saúde. Há mecanismos e intervenções com a efetividade requerida que ajudam todas as pessoas a alcançarem seu potencial completo. Por exemplo, vemos Uganda e Tailândia reverterem a propagação das infecções pelo HIV, o Peru reduzir pela metade, em uma década, a tuberculose, enquanto as mortes devido à malária caíram mais de 90% em poucos anos no Vietnã.
No ano passado, propus que a Organização Mundial da Sa© úde (OMS) considere a crescente preocupação internacional com os aspectos negativos da globalização. Sustento a necessidade de um programa estratégico dedicado a investir num futuro igual para todos os seres humanos. Isto significa dar muito mais peso do que antes a questões tais como boa saúde e educação, bem como examinar sua distribuição na sociedade.
O acesso à biotecnologia representa inúmeros desafios. Não importa onde estejam - Rio de Janeiro, Lusaka, Bombaim ou em Moscou - as pessoas infectadas pelo HIV sabem que agora existem medicamentos à disposição que podem efetivamente prolongar suas vidas. Também sabem, graças à globalização das informações, que apenas os mais privilegiados dentre eles podem permitir-se comprar tais remédios.
Esse difundido conhecimento da situação muda radicalmente o contexto social e econômico dentro do qual esses medicamentos são produzidos e vendidos. Sem dúvida, que tais mudanças acrescentam-se às pressões feitas no setor tecnológico-farmacêutico e sanitário, que está entre os mais competitivos e lucrativos na economia moderna. Para sustentar os esforços destinados a reduzir o sofrimento humano e promover um desenvolvimento equitativo, necessitaremos das melhores ferramentas que a ciência possa oferecer - novas vacinas, novos medicamentos e diagnósticos - com preços que atendam às exigências sanitárias dos países mais pobres.
Se não atuarmos positivamente, com coragem e recursos, aumentará a distância entre os três bilhões de seres que vivem com menos de US$ 2 por dia e o resto da humanidade, o que significará uma ameaça para o desenvolvimento econômico de diversas partes do mundo, afetando tanto a prosperidade quanto a estabilidade política e militar de todo o planeta.
- GRO HARLEM BRUNDTLAND é diretora-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) e ex-primeira-ministra da Noruega

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