A gigante de Forquilhinha
A gigante de Forquilhinha
Walmor Macarini
Forquilhinha fica a 17 quilômetros de Meleiro. Assim todos sabem onde é... Foi em Forquilhinha que nasceu Zilda Arns, que agora o ministro José Serra sugere seja indicada para concorrer ao Prêmio Nobel da Paz. Descendente de alemães, irmã do arcebispo Paulo Evaristo Arns, esta catarinense fantástica fundou a Pastoral da Criança, uma organização da Igreja Católica que presta socorro a menores abandonados e a gestantes carentes, e que já conta com representações em 3.221 municípios e atende a 32 mil comunidades pobres. O braço dessa Pastoral também alcança comunidades de mais oito países sul-americanos, e de Angola e Guiné-Bissau, na África.
Várias vezes o nome desta pediatra que um dia deslocou-se de seu Estado natal para vir prestar serviços ao Paraná, onde hoje reside despontou como concorrente a esse prêmio. Quem primeiro se lembrou dela foi o bispo José Ximenes Belo, do Timor Leste, pela defesa que ela fazia da independência desse país, conquista afinal alcançada.
A primeira experiência da Pastoral aconteceria aqui em Florestópolis. Foi cerca de 20 anos atrás, quando o município apresentava elevado índice de mortalidade infantil. Hoje, nesta cidade de 12,4 mil habitantes, aquele índice ficou zerado. Graças ao ideal dessa intrépida mulher, do arcebispo Geraldo Majela Agnello e da comunidade local.
Por que uma cidade encravada no solo mais rico do Brasil, a 73 quilômetros de Londrina, poderia apresentar não apenas um nível alto de mortalidade infantil, como também elevado grau de pobreza? Há quem culpe a cana-de-açúcar. Por situar-se ao lado da usina açucareira de Porecatu, sempre dependeu da cultura de cana, e essa atividade agrícola é sazonal, não proporciona trabalho o ano inteiro. Era (e até certo ponto ainda é) uma cidade de bóias-frias, trabalhadores rurais sem vinculação empregatícia, uma herança deixada pelas esquerdas brasileiras ao tempo do presidente João Goulart, quando implantaram a malfadada legislação trabalhista no meio rural, sem adaptá-la à realidade do campo. Florestópolis, ademais, seguiria o estigma do que foi o primeiro grande negócio do Brasil-colônia, marcado pela ditadura do coronelismo e sobretudo pela mancha negra que ainda guarda sequelas neste país, que foi o trabalho escravo nos canaviais.
Zilda Arns, com toda certeza, não está reivindicando prêmio nenhum, eis que ela é detentora do maior de todos os prêmios, que é o êxito da missão que se propôs executar.
Era quando as famílias de bóias-frias ainda não conheciam a multimistura, o soro caseiro, o programa de aleitamento materno, o acompanhamento de peso, os remédios feitos em casa e a vontade dos católicos de fazer o que os governos não faziam diz o padre Manoel Idalgo, que há 5 anos comanda o esforço voluntário das 80 mães monitoras da Pastoral, em Florestópolis.
Mas a Pastoral da Criança é responsável por outro megaprograma: o de alfabetização de jovens e adultos, que hoje beneficia mais de 30 mil pessoas. E na área de geração de empregos, 38 mil famílias participam, através da Pastoral, de quase 1.500 núcleos de trabalho, pelo Brasil inteiro.
O que o governo não faz, os cidadãos fazem. Não apenas o que o governo não faz, mas o que desfaz, e aí então o trabalho é redobrado para os cidadãos: desfazer e refazer. Exemplo daquela legislação trabalhista, imposta nos moldes da legislação para o trabalhador urbano e que resultou no êxodo rural e no advento da figura do bóia-fria, um errante gerado, que acabou refugiando-se na periferia das cidades e robusteceu as favelas, com todas as mazelas sociais daí decorrentes. Essa lei absurda sofreu alguns remendos, mas ainda não foi desfeita.
E mais não precisa dizer sobre os males que os governos têm causado, representados pelos desmandos, pela corrupção, pelas ditaduras de direita e de esquerda (a de esquerda vivemos agora, com um socialista de outrora a comandar a corrente de incerteza e de desânimo que assola a Nação); a supertributação, o alto custo do dinheiro necessário para o desenvolvimento, quase todo em poder dos bancos, e que vem arrastando empresas para o caos; o temor dos cidadãos em abrir negócios, pela ausência de perspectivas seguras; o desemprego, a desconfiança nos governantes, pela inoperância, pela demora em tomar resoluções e pela farra que fazem com o dinheiro público.
Mas o Brasil-cidadão sobrevive, apesar dos governos. Exemplo de Zilda Arns, que não tinha nenhum compromisso de fazer o que fez e o que está fazendo, eis que não subiu em palanques para eleger-se criadora da Pastoral da Criança, nem nos pediu votos para poder realizar sua obra.
A mostrar que o Brasil poderia dar-se muito bem sem governos...
E para finalizar, um toque de nostalgia pessoal: conheci, quando criança e adolescente, os Arns, que eram donos de um abastecido armazém e para o qual meu pai fornecia artigos de selaria. Lembranças que nada interessam ao leitor, mas que afloram em momentos como este, quando uma contemporânea de Forquilhinha emerge entre os benfeitores da humanidade.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina





