A Alemanha, a quarta potência econômica do planeta, constitui um bom exemplo dos riscos de um plano estratégico para o setor energético mal elaborado, fato bem exposto, sobretudo, quando o país permitiu uma forte dependência do gás russo, algo próximo a 60%.

Um planejamento energético deve levar em conta muitas variáveis e uma delas é se preparar para o elemento surpresa. Nesse caso, as pretensões de expansão territorial russa foram claramente negligenciadas pelos europeus, especialmente pelos alemães.

Logo, bastou os russos invadirem a Ucrânia e a Europa decidir condená-la por essa guerra para a crise bater à porta dos alemães. Pode-se afirmar que os russos, diferentemente dos alemães, atuaram sob a lógica da geoestratégia no campo energético.

Não era segredo que Putin já demonstrava ambição na ampliação territorial da Rússia pela incorporação de antigos territórios da ex-União Soviética: a Criméia, uma república autônoma da Ucrânia, foi anexada pela Rússia já em 2014. Em seguida, vem a invasão da Ucrânia, no início de 2022, e nada melhor que empregar uma poderosa arma, o gás natural, do qual a Alemanha era totalmente dependente.

Nesse cenário, qual teria sido o motivo para a Alemanha ter adotado uma política energética muito dependente do gás russo? A princípio, há duas hipóteses: a primeira é, de certa forma, traiçoeira e escandalosa, isto é, a participação do ex-chanceler, Gerhard Schröder, quando deixou o governo, em 2005, e aceitou de imediato o convite de Vladmir Putin para integrar o conselho da gigante russa de gás, a Gazprom.

A segunda hipótese se originaria de uma política ambiental verde, ou “limpa”, adotada fortemente pela Alemanha, de início para eliminar a energia nuclear, considerada de alto risco. Essa política foi, na realidade, apressada após o desastre nuclear de Fukushima, em 2011, no Japão. Assim, a Alemanha deu seguimento ao plano de fechar todas as suas usinas nucleares até o ano de 2022, atitude totalmente inversa do país vizinho, a França, país onde em torno de 70% de sua matriz energética ainda provêm de usinas nucleares.

Diante desse cenário, o fechamento do fornecimento do gás russo desfere um golpe nas políticas de energia limpa dos alemães. Alguns ministros de estados chegaram a solicitar uma revisão na paralisação das usinas nucleares, ou talvez ampliar o tempo de operação dessas usinas.

A Alemanha possui, contudo, poucas opções para substituir o fornecimento russo. Uma das alternativas viria de um país distante, lá do Oriente Médio, o Catar, país sede da Copa de 2022, um dos maiores produtores de gás natural do mundo. O Catar, no entanto, certamente se aproveitaria da grande necessidade alemã e imporia condições: uma delas veio através da exigência de um contrato de fornecimento de longo prazo, ou seja, de 15 anos.

Na realidade, a QatarEnergy, e a ConocoPhillips, norte-americana, assinaram acordo para o fornecimento de gás natural, com início previsto para 2026, estipulado em dois milhões de toneladas do produto. O gás é transformado em líquido e, posteriormente, embarcado em navios; ao chegar ao seu destino, transforma-se novamente em gás.

Desprezar, portanto, a geoestratégia, tendo em vista o abastecimento de energia, pode custar um preço muito elevado para a economia e a sociedade de qualquer país, e a Alemanha está pagando por seus erros.

Ycarim Melgaço, Doutor em Geografia, Pós-doc em Economia e em Administração de Organizações

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