A geladeira dos desesperados - Gaudêncio Torquato
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de setembro de 1998
Gaudêncio Torquato 
Um mundo em turbulência não comporta ilhas de prosperidade. A crise que assola os chamados países emergentes certamente não haverá de poupar o Brasil. Corte drástico de gastos, desvalorização da moeda, reforma fiscal com aumento de impostos são alguns dos remédios que já se propagam para o País enfrentar a crise. Sejam quais forem as decisões a ser adotadas, parece ser consenso: o segundo mandato de Fernando Henrique será povoado de tensões e contrações. Quem espera um grande salto na área social, poderá ter frustrações.
Não há como deixar de se reconhecer a reeleição de Fernando Henrique como favas contadas. Com crise ou sem crise, ele encarna com mais força o ideal da proteção e da estabilidade. O eleitor, quando se vê ameaçado, procura se refugiar num cobertor que lhe dê conforto. Pessoas inseguras, desempregadas, costumam encher a geladeira de alimento. A cozinha passa a ser um cantinho de proteção - a sobrevivência do ser humano começa pela barriga. FHC se assemelha à geladeira dos desesperados.
O paradoxal dessa imagem é que o presidente não poderá oferecer aos famintos da crise a comida que eles esperam. Economistas talhados pelo bom senso, empresários comedidos, formadores de opinião equilibrados batem na mesma tecla: o próximo governo viverá em crise. E não se espere crise de um ano, dois anos. Poderá comer todo o mandato. Para evitar que a crise seja longa, há quem defenda a idéia de uma pancada muito forte logo depois das eleições, a fim de se ganhar tempo e abreviar os momentos de desespero.
Tomando decisões drásticas mais cedo ou mais tarde, o governo de Fernando Henrique terá no primeiro ano do segundo mandato o período mais duro de seu reinado. A cobra vai fumar. As previsões são as mais pessimistas: sem dinheiro para tocar a área social, o desemprego aumentará; sem estímulo, as empresas diminuirão a produção; sem programas sociais fortes, a saúde, a educação e a segurança terão ampliados seus índices de deterioração. E é claro que esse panorama sombrio se refletirá no ânimo geral da população. Teremos mais conturbações, mais tristeza e mais angústia.
As administrações estaduais, em função de cortes drásticos no Orçamento, sofrerão e terão que conviver mais com recursos próprios. Os grandes programas do Brasil em Ação, de alçada federal, poderão oferecer algum alento. Mas quantos deles entrarão no rígido cronograma estabelecido? A popularidade do presidente e de alguns governadores despencará, quando as medidas começarem a apresentar a fatura do desgaste. E é por isso que as oposições, sejam as funcionais-clássicas dos partidos de oposição, sejam as internas do próprio sistema governista, crescerão.
Dentro desse roteiro, cabe especular sobre a força dos movimentos organizados, como o Movimento dos Sem Terra, por exemplo. Como o único movimento globalizado e uniforme do País, poderá crescer e criar marolas de contrariedade. Está presente em quase todos os estados. Os setores médios dos grandes centros sofrerão com mais rigor o castigo da crise, a ser verdade a hipótese de se transformar no principal segmento a pagar o pato. Falam em onerar com mais impostos as classes médias.
Com esse fundo, inicia-se o preparo da campanha intermediária de 2000 para as prefeituras. E um castiguinho vai aparecer para os atuais prefeitos: cogita-se em mudar a legislação, evitando que fiquem nos cargos até o último dia, caso se candidatem novamente. Ou seja, vai surgir a emenda da desincompatibilização para os prefeitos. Qual a razão? A força das máquinas demonstrada na atual campanha. Nunca se viu tanto oportunismo eleitoreiro e tanto uso de estruturas administrativas como na campanha em curso.
Não há força capaz de dourar a pílula no ciclo a ser instaurado pós-eleição. Esta foi a última eleição dos grandes engodos. A saturação do marketing vai criar um vírus contra ele mesmo. Nos próximos anos, não haverá tapumes escondendo a feiúra da miséria. A cosmética da felicidade estará manchada pela tinta das grandes aflições. A não ser que Deus seja realmente brasileiro.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e presidente da ABCOP (Associação Brasileira de Consultores Políticos) em São Paulo
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