A Gazela, o Leão e a Alienação - Gaudêncio Torquato
Gaudêncio Torquato
Final de ano, momento de reflexão. Pensar sobre a insensatez desses tempos modernos pode ser um bom início para a recauchutagem do espírito. Duas historinhas reais e um apólogo são, aqui, escolhidos para embasar uma pequena leitura do cotidiano. Há dias, as emissoras de TV noticiaram dois assaltos que chamaram a atenção pelas circunstâncias inusitadas. No primeiro, no Rio de Janeiro, um ladrão, celular na mão, retrucava a pessoa que o chamava: Não dá para falar agora, pois estou trabalhando. Noutro assalto, desta feita ao pagodeiro do grupo Sowetto, um dos assaltantes, reconhecendo-o, pediu um autógrafo. O cantor, constrangido e amedrontado, teve que dar o autógrafo, depois de o bandido arrancar a folha de uma agenda. Insensatez, loucura, banalização da criminalidade, frieza ou simplesmente um fragmento da brutalidade infernal desses tempos ditos de globalização?
Os dois fatos têm mais significados que a simples fotografia do cenário de violência a que estamos submetidos. Expressam o estado ilógico, antinômico e alienado de um mundo em que os princípios da eficiência, competitividade a qualquer custo, concorrência e aética, estão tornando as pessoas infelizes, solitárias e menos solidárias. Domenico de Masi, sociólogo italiano, autor de O Futuro do Trabalho, pinça o apólogo do Leão e da Gazela para mostrar a que ponto chega a esquizofrenia bárbara dos ambientes de trabalho, que se transformaram em campos de guerras da modernidade.
A historinha é emblemática: Toda manhã, na África, uma gazela desperta. Sabe que deverá correr mais depressa do que o leão para não ser devorada. Toda manhã, na África, um leão desperta. Sabe que deverá correr mais que a gazela para não morrer de fome. Quando o sol surge, não importa se você é um leão ou uma gazela: é melhor que comece a correr. Esse lembrete ainda é exibido em ambientes de trabalho como profissão de fé de executivos e dirigentes empresariais. À primeira vista, parece um bom conselho para quem quer vencer na vida.
Trata-se, porém, de uma exaltação à barbarie. Basta intuir que, pelo conselho, leões humanos (aspas nossas) são autorizados a agarrar gazelas humanas (aspas nossas), que, apavoradas, devem se desdobrar para realizar suas tarefas ou a se esconder para fugir das intempéries do trabalho (ou dos ataques dos leões). É evidente a estimulação ao instinto da violência, ao cultivo dos perfis agressivos, às lutas por espaço e poder, às táticas aéticas e aos golpes traiçoeiros, tudo justificado pela necessidade da competitividade.
Nessa arena de leões e gazelas, a alternativa que se apresenta é única: correr ou golpear. E é isso que se vê nos ambientes de trabalho competitivos, no chão das fábricas, nos palácios públicos e nas ruas. Afinal de contas, o ladrão que fala calmamente ao celular, ele mesmo um leão faminto (dinheiro, drogas, satisfação psicológica), é produto de um meio cada vez mais degradado. A estética de medo, subordinação e culto à tecnologia dos teatros de competição montados nos ambientes de trabalho soma-se à estética de banalização da violência nas ruas, cuja multiplicidade é assombrosa: as cidades com seus serviços deteriorados, um tormento que torna a vida massacrante; a violência da miséria absoluta, que exclui milhões de pessoas, principalmente contingentes marginalizados das periferias urbanas; a violência contra o menor e pelo adolescente infrator; a violência contra mulheres, ainda muito discriminadas; a discriminação étnica; a violência do desemprego e assim por diante.
Eis o paradoxo da modernidade. Esse caldeirão, que deveria ser quente, pela alta temperatura das situações, está transfigurando a sociedade em um ente frio, compartimentalizado em grupos e feudos, recortado por imensos apartheids econômicos e sociais. De outro lado, a tecnodemocracia inventada pelo interesse das estruturas burocráticas do poder público e a organodemocracia, que é a democracia dos departamentos criados nos ambientes hierarquizados do trabalho privado, estão amortecendo o conceito da sociedade convivial, sociedade voltada para os cidadãos e não para a produção. Os burocratas não sentem o cheiro das ruas e os dirigentes empresariais só têm olhos para a produtividade, não raro procurando fórmulas para atenuar os golpes furiosos do tacape de impostos e tributos governamentais. Assim, não há tempo, interesse ou motivação para se tratar de outras questões, como, por exemplo, as coisas do espírito.
Onde estão os valores da solidariedade, do companheirismo, da doçura nas relações do trabalho, da amizade, da comunhão, do jogo em equipe? Estão se despedindo da Humanidade. Em seu lugar, surge uma modelagem tétrica, um aparato desordeiro, um jogo maléfico, altamente competitivo, que convive prazerosamente com golpes, morte, traições, desprezo à vida. Para fechar a galeria da insensatez, só resta aparecer bandidos em assaltos usando camisetas com Cristo, Ghandi ou a rezando orações para seus santos de veneração. Ou que, nos postos de trabalho, os apologistas dessa pseudo-modernidade bradem o novo grito de guerra: Mate seu companheiro, se ele, de alguma forma, atrapalhar o serviço. É o mundo completamente alienado, fora do eixo. Que Deus nos livre desse apocalipse. Amém.





