A vespa pousou na cabeça de uma serpente, pondo-se a atormentá-la com seu ferrão. Louca de dor, não podendo defender-se de seu inimigo, a serpente meteu a cabeça debaixo da roda de um carro, morrendo junto com a vespa. Esopo mostra, nesta fábula, que certas pessoas não hesitam em morrer arrastando seus inimigos. Pois é isso que está ocorrendo na esfera política nacional.
O processo de canibalização que invadiu o território político arrasta para o corredor da morte contendores parlamentares, devasta espaços de candidaturas presidenciais, volta-se contra o presidente Fernando Henrique, que, vez ou outra, tem de usar um verbo mais forte para defender o governo da acusação de inerte em relação às denúncias de corrupção, e ameaça jogar o País nas profundezas da instabilidade institucional.
Atores políticos do situacionismo governista estão se comportando como vespas e serpentes. Ao construir a pira para queimar Jader Barbalho, o senador Antonio Carlos Magalhães coloca em combustão o tênue fio que sustentava o equilíbrio interpartidário, espalha cinzas na imagem presidencial e acende um facho de luz que serve para iluminar os tortuosos caminhos das oposições em direção ao assento no Palácio do Planalto, em 2002.
E se a crise está assumindo uma dimensão oceânica, é porque o País entronizou a fulanização da política, a personalização do poder. O vedetismo ganha espaço nas mídias, esvaziando o debate político da força das idéias, substituindo-a pela expressão particularizada. A forma suplanta o fundo, a imagem de rancor dos políticos ultrapassa a grandeza dos conceitos.
A luta política no Brasil reduziu-se a uma rivalidade entre pessoas. Jader versus ACM, Serra contra Tasso e vice-versa, Itamar e Ciro contra Fernando Henrique, Lula contra cada um, Maluf junto com Quércia se afagando, Garotinho querendo tomar o lugar de quem quer que seja, Marta contra Alckmin e este querendo vestir o traje de Mário Covas. E as idéias, os programas, a doutrina, a substância, onde estão? Será que a política é apenas uma luta de tele-catch?
Será que denúncias sobre corrupção não podem ser apuradas normalmente pelos órgãos públicos, incluindo o Congresso, sem que seja necessário, para tanto, travar a pauta temática da representação política?
Algo está muito errado. Nenhuma pessoa ou instituição, detentora do maior poder, tem o direito de deixar a Nação refém de uma pauta adjetiva. E se isso ocorre, é porque o jogo político está completamente embaciado. As pedras do tabuleiro estão trocadas. O presidente da República, há de se lembrar, é o comandante da Nação. Não pode ser usado como moeda de troca no balcão das barganhas. Nem menos deve ser acorrentado como refém na gaiola das conveniências políticas.
A história das contas de Cayman – recorrente bandeira do denuncismo irresponsável de parcela da imprensa – e fitas com diálogos de ex-ministros sobre as parcerias do programa de privatização nas teles parecem mais servir a um marketing de conveniências que junta, em simbiose, o poder de destruição da mídia com a capacidade de alguns políticos assemelhados a urubus, sempre atentos ao cheiro de carniça. Que o presidente tem a responsabilidade cívica e moral de mandar apurar todas as denúncias, disso não se duvida. O que se põe em dúvida é a intenção de certos acusadores, alguns muito hipócritas, incluindo-se representantes de partidos oposicionistas, que exibem dois discursos, um de acusação, no Parlamento, outro na defesa dos governos e prefeituras que comandam.
Urge ao presidente usar a força de sua autoridade, resgatando a liturgia do poder que parece perdida. A nomeação de uma procuradora para lancetar o tumor da corrupção não pode ser apenas cosmética. Os resultados precisam vir a público. Convém aos entes partidários abandonar a mesquinharia e a tática de emboscada que os envolvem, desde o momento em que a disputa pela direção das duas Casas congressuais se transformou na preliminar do pleito de 2002.
A pasteurização ideológico-doutrinária dos partidos, a descrença que circunda a imagem do Parlamento, a ambição desmesurada que toma conta de seus participantes, estão a justificar a imediata abertura de discussão sobre a reforma política. Enfrentar o amanhã com a atual feição partidária equivale a aumentar o fosso que separa o Estado da sociedade.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular universitário em São Paulo e consultor político
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