A frustração das classes médias - Gaudêncio Torquato
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de setembro de 1997
Gaudêncio Torquato 
Nenhum governante, por melhor que seja, resiste à cultura da pasmaceira, que espraia pelo corpo social um sentimento de mesmice, tédio, falta de arrojo e criatividade. A percepção do fenômeno é característica de setores que decidem sob parâmetros racionais, entre nós identificados pelas classes médias dos grandes centros. São elas que começam a corroer o prestígio do presidente Fernando Henrique. À maneira da pedra jogada no meio da lagoa os contingentes médios tendem a formar círculos concêntricos que se projetam sobre as margens da sociedade, influindo sobre a decisão das massas.
A pressão central sobre as pontas poderá ter efeitos devastadores, caso aumentem os índices de insegurança social. Os sequestros, a criminalidade, a violência policial e o estado de inação que toma conta da aparelhagem governamental geram um imenso vácuo nos espaços da autoridade, da ordem e da justiça. O pãozinho barato, o frango de R$ 1 que já saturou nossa tolerância, o jeito arrogante do presidente e sua capacidade de achar tudo muito bonito, os escândalos semanais que mancham nossos políticos e o desfile de velhas lideranças, com seus discursos embolorados, aprofundam a descrença social. Para resgatar valores de civismo e cidadania, grupos se refugiam em movimentos organizados, que passam a operar eixos de uma micropolítica orientada para a busca de resultados. É aí que as classes médias buscam lenitivo para sua frustração.
Nessa moldura, encaixam-se os perfis políticos alternativos, do tipo Ciro Gomes, Itamar Franco, Tarso Genro. Ao contrário do que pode supor nossa vã filosofia, o país não está querendo se embalar na onda rosa-socialista que trouxe ventos novos à Europa. Não se procura, entre nós, o refúgio da ideologia, não se canta o hino revolucionário, não se procura mudar o vértice do regime. Aqui, o mar é outro e o sopro é tropical-suave. O que começa a se exigir, de forma mais nítida e contundente, é uma mudança de métodos, buscam-se um mergulho ético, novas inspirações para administrações cansadas, a melhoria de processos. A vida no país está ficando besta de tanta mesmice, Fernando Henrique é um monumento à repetição. Seu intelectualismo arrebenta cérebros. Lula é uma fábrica de bordões. Brizola é um arquivo morto.
Ora, nesse mar de águas paradas, os banhistas procuram surfar numa onda que lhes dê o prazer da emoção diferente. Querem seguir, como Zaratustra, novos caminhos, se empolgar com uma nova fala. Como os criadores, cansaram-se das velhas línguas. Seu espírito não deseja mais caminhar com solas gastas. Qualquer político, de perfil asséptico, audacioso, mais para jovem que para velho, articulado, com propostas objetivas para as classes médias, poderá ser a onda diferente. Ciro Gomes sabe disso e está embandeirando seu perfil. Previne-se contra o estigma de Collor, mostrando o que fez e desnudando sua história. Itamar não tem fôlego para chegar à praia. Sarney não entra nos mares do Sudeste. Tarso Genro confina-se nas plagas gaúchas.
A pior coisa que poderá ocorrer, para os setores médios, é o recall da última campanha, com Fernando Henrique batendo em Lula. Se a coisa ficar mesmo muito chata, é bem capaz de vermos o crescimento de candidatos nanicos. Com mais alguns sequestros de grande comoção, as barbaridades assolando todas as regiões do país, até os mais distantes rincões, a injustiça correndo solta, não há Real que garanta uma sobrevida folgada a Fernando Henrique, principalmente se a mídia começar a energizar as multidões. Sente-se, por todos os lados, a necessidade de um programa proativo e animador da sociedade. Um ar de velório tem soprado sobre a cabeça dos grupos que gostam de pensar.


