A Campanha da Fraternidade da Igreja Católica, que sempre se abre na Quarta-Feira de Cinzas, ocupa-se neste ano de 97 dos encarcerados. Que se acautelem bispos e padres, porque vão acusá-los de proteger os bandidos!
Está aí um tema que vai frequentar as páginas dos jornais, as tevês e os púlpitos, notadamente neste período litúrgico da Quaresma.
Por que uma pessoa é presa? Porque cometeu um delito, e pela lei dos homens ela tem que sofrer uma punição, para que a sociedade se sacie de vingança. Para conduzir um delinquente ao cenário onde purgará seu erro a sociedade estriba-se no livro de sentenças que se denomina Código Penal. Não um código de recuperação, não um código de uma chance, mas um código penal! Diante do delito cometido a sociedade livre reage implacável e quer a punição, não necessariamente porque vise ao isolamento desse cidadão para evitar que cometa novos atos de delinquência; a impulsão primeira é a da punição, porque ela satisfaz, sacia, tem sabor de desagravo.
A função do cárcere não é esta, e sim isolar do meio o delinquente, pelo tempo necessário, e recuperá-lo para o seu reingresso no convívio social. Mas os presídios têm se constituído em escolas de criminalidade. Poucos saem de lá recuperados, quando não morrem antes, assassinados pelos próprios companheiros ou pelo sistema carcerário. Os que se salvam, salvam-se pela graça da regeneração, da ajuda (louve-se!) das igrejas que assistem os ambientes das prisões, e nisto destacam-se as evangélicas; nunca pela graça de um suposto programa carcerário de recuperação. Pelo contrário, esses estabelecimentos penais (e não é à toa que são denominados penais, penitenciários) pioram o infortunado que vegeta lá dentro.
Não se pretende defender o bandido e esquecer da vítima. Mas a questão é que o bandido é também uma vítima. É dele que trata a Campanha da Fraternidade, é dele que tratamos, porque não haveria vítimas se o meio não originasse o bandido. Porque estamos cercados por uma cultura de violência, que nos espreita e encurrala, representada pelos tiroteios diários da televisão, pela exaltação do herói do cinema que dilacera e extermina, pelas séries que estimulam o consumo de drogas, pela exacerbação do sensualismo e do erotismo, pelo noticiário que faz da matança o espetáculo e dele se nutre, pelas injustiças sociais, mães-madrastas de tantas misérias humanas.
Todo preso é recuperável, mas os sistemas carcerários não acreditam (e nem investem) nisto. Pela ociosidade o leva aos vícios, à promiscuidade, ao tráfico intra-muros e ao consumo de drogas, ao auto-extermínio.
Carcereiros e policiais despreparados, e ganhando miséria, gostariam mesmo é de acabar logo com ‘‘essa raça’’ de marginais, porque são para eles uma questão profissional, de desafiador e desafiado, de quem é mais astuto, de quem primeiro elimina quem. Prender um bandido desafiador é para eles um troféu, eliminá-lo será a certeza de não reencontrá-lo no próximo beco, no próximo confronto. Porque bandido que se livra das grades - fugindo ou libertado mediante suborno, ou pelas artimanhas e flexibilidades da lei ou pelo cumprimento da pena - no mais das vezes volta à prática do crime, e com muito mais fúria. E, com tudo isto, as estatísticas mostram que os valores roubados pelos bandidos ainda são insignificantes diante das fortunas embolsadas pelos criminosos denominados de colarinho-branco (os engravatados).
Que a Campanha da Fraternidade da CNBB sensibilize todos aqueles que tratam dessa delicada questão do sistema carcerário e que em última instância somos todos nós. Pena de morte não é solução, porque não deu resultado nos países que a adotam, e ademais qualquer sistema que vise melhorar o meio social deve ter como meta salvar o homem, nunca eliminá-lo!
A Campanha da Fraternidade ressalta a missão de Jesus, que veio para libertar a todos; e que não fazia distinção entre as pessoas, mas ocupava-se de recuperar justamente os desviados.
Os presídios, no Brasil, que são universidades do crime, deveriam desviar-se de seu sentido punitivo, cerceador dos movimentos daqueles que os habitam - porque eles são algozes e vítimas - e converter-se em centros de recuperação, que pudessem manter ocupados os presos, em campos agrícolas, em oficinas de artes e ofícios, em escolas de alfabetização e aprendizagem. Algo não impossível, embora difícil num país onde nem o governo e tampouco a sociedade preocupam-se em recuperar, primeiro, os milhões de excluídos que vicejam no analfabetismo e na miséria. Que estes também são encarcerados!!!
Vamos todos embarcar nesta campanha da CNBB, acionando corações e mentes no propósito firme de salvar esses tantos prisioneiros, filhos tão iguais aos nossos filhos, irmãos tão iguais aos nossos irmãos, gente tão gente como a gente!

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